sábado, 30 de junho de 2012

SOMOS MESMOS MUITO COMPLEXOS POR QUE SOMOS MUITO FRÁGEIS!


Gilson Lima [1]
O que em mim sente está pensando (Fernando Pessoa)
DrPesquisador - CNPQ - Porto Alegre.E-

Foto no maravilhoso Parque de Cape Town 
- Cidade do Cabo – África do Sul.
Geralmente, passarinhos “adultos” cuidam muito bem dos seus filhotes. São atentos e fraternos, mas só cuidam de seus filhotes, até que possam se virar sozinhos. O ninho para eles é uma morada provisória e terminal, pois, quando os filhotes voam rumo ao horizonte, o restante da família passarinho, também abandona o ninho, não olhando para trás. Nunca mais retornam, apenas vão. Vão acontecer no mundo voando.

Assim, como todos os mamíferos humanos não sou passarinho, por isso quero sempre voltar ao ninho. Um lugar para ficar, pousar, fechar os olhos sem receio, estar ao lado de quem confio, poder dar colo, debater, brigar, crescer, morrer, renascer e desassossegar-se no sossego. O meu ninho não é, portanto, uma estada terminal. Sou eu quem termino, o ninho fica.
Somos seres que acontecemos, e acontecemos no mundo e, por isso, somos também nossos medos, nossas esperanças e nossos cálculos. Porém, o que nos torna mais fascinantes como seres vivos é o que geralmente a razão quer mais esconder, que é a nossa incompletude, a nossa fragilidade. Somos complexos porque somos frágeis. A fragilidade humana está presente até nas escolhas filogenéticas e ontogenéticas que fazemos ao longo da evolução. Querem ver?
Os animais, segundo a biologia, podem ser artrópodos (exoesqueleto) ou vertebrados (endoesqueletos). A diferença aqui é entre ter esqueleto externo e esqueleto interno. Isso é importante, pois implicará na capacidade de como animais nos mobilizarmos e nos movermos diante da sustentação de nossos próprios corpos. Imaginem um caracol. Tudo que se encontra dentro do caracol está protegido pelo seu exoesqueleto (aquela casca dura que achamos ser a casinha dele). O complexo estado de mentitude (quando a mente acontece no mundo), só se encontra em animais que precisam se locomover.[2]
Nós seres humanos acabamos, de um jeito ou de outro, ao longo da nossa evolução, levando os ossos para dentro do corpo e criamos uma complexa massa externa de frágeis fibras que permitem muita flexibilidade, excitação de sensibilidade. Porém, para que isso aconteça ficamos muito frágeis. Sem precisar sequer sair de casa, expomos nossa fragilidade corpórea aos perigos da aventura do viver.
Agora imaginem: nós ficamos de pé, eretos, nos equilibramos e nos movimentamos levando por aí toda essa nossa frágil cobertura exposta, dia a dia, a essa aventura de viver no mundo. Olhando, por exemplo, apenas para nossa pele que nos protege e a tudo que está lá fora para feri-la quando saímos de casa, é quase um milagre voltarmos intactos para casa.
Somos mesmo muito corajosos e complexos. Apenas para ficarmos eretos (uma atividade vital para nossa qualidade humana) precisamos orquestrar um complexo conjunto de conexões que prevêem posições, intensidades e cálculos. Isso se considerarmos apenas as conexões que incidem sobre as fibras musculares e que nos permitem indicar inúmeros monitoramentos de elasticidades, movimentos diversos de intenso volume e complexidade realizada por nossas pernas, braços e pescoço.
E para caminharmos, então? Definirmos os movimentos, curvas, destinos, desvios de obstáculos. São processos tão complexos e tão rápidos, que só com ajuda de potentes aparelhos podemos identificar seus trajetos e operações visíveis. Estamos falando apenas de processos mais rudimentares da mobilidade para que não tenhamos movimentos desastrosos, e só eles nos indicam a necessidade de um constante plexo mental que nos dote de muita precisão e simulação.
Somos mesmos muito complexos. Para operarmos nossos dedos polegares opositores – que são ferramentas muito úteis e que, como pinças, permitem conexões e ligações finas com múltiplos objetos – precisamos interagir muitas vezes em simbiose com outras complexas habilidades como a representação abstrata do mundo em imagens e dominar linguagens que permitirão estratégias individuais e grupais. Tudo isso torna o ser humano extremamente hábil e dotado de complexidade para pensar em abstrações complexas.
Não estou aqui nem sequer falando de estado de mentidude mais complexo, pois quase tudo que não é físico-eletrônico na nossa mente, ainda é indecifrável para nós e até para a ciência.
Mas quando optamos pela fragilidade corpórea para flexibilizar nossas movimentações e pinceladas de precisões sobre o acontecer no mundo, na evolução, os humanos, que não são bobos, resolveram proteger muito bem aquilo que eles têm de mais complexo: a mente. Nossa mente, diferente de nosso corpo endoesqueleto é protegida por uma caixa craniana, quase um exoesqueleto, assim como é a casinha dos caracóis.
Nossa mente é uma frágil gosma cinzenta, fibrótica e enrugada que está protegida por uma caixa óssea potente. O cérebro produz as sensações de dores, mas ele mesmo não tem dor. Quando, devido a um acidente, o ser humano, por ventura, quebra a sua caixa craniana e se mantém vivo, e, com uma frieza cirúrgica, imaginássemos, então, colocarmos a mão neste seu cérebro exposto, esse vivente não sentiria nada. Esse vivente só sentiu dor quando quebrou o seu crânio, mas quando manuseamos a geléia do cérebro com nossas mãos, não.
É claro que não foi por nada que protegemos essa nossa potente e complexa fabricação de simbioses mentais que possuímos. Não conhecemos nada mais complexo no mundo de que a mente humana. Nem sequer sabemos ainda lidar com toda a sua potência com que nos brindou.
Nossos estados de mentitude são realizados de modo tão espetacular que não temos nem como descrever. Ali como pixels de bits, nossos reflexos biosinápticos de células nervosas são conectadas numa velocidade impensável por uns conectores chamados de axônios. Os neurocientistas calculam que existem em nossa mente, somente células neuronais cerca de 83 bilhões [3] (neurônios) e algo em torno de 1 trilhão de células gliais.[4]
As ciências da mente que reduziram o cérebro como um modesto computador, deram muita importância aos neurônios e suas conectividades informacionais e pouca atenção a outras linguagens, químicas e emocionais.
Os próprios neurônios são também redes de moléculas ligadas por reações bioeletroquímicas. Nossa mente em atividade brilha numa intensa coreografia piscante como se pós de areia tingidos por néon escorregassem entre bilhões de fibras leves, enrugadas numa geléia dentro de uma dura caixa encefálica. Infelizmente, toda essa maravilha funcional e espetacular que nos contam os neurologistas, mostra, apenas, que nossa mente é um complexo mecanismo bioquímico-eletrônico, mas não mostra sua alma. A mente humana, para o bem e para o mal, não se resume a um mecanismo e não comporta um programa exógeno de bits em forma de pixels.


[1] Fragmento de um texto, aqui com pequenas modificações, publicado originalmente no livro Nômades de Pedra: teoria da sociedade simbiogênica contada em prosas, Porto Alegre, 2005, p. 407-4 12.
[2] É praticamente certo de que os primeiros seres vivos não tinham os ossos que tanto ajudam a preservar os fósseis que são detalhadamente estudados como os dos dinossauros, por exemplo.
[3] De acordo com os estudos recentes (como o de Robert Lentz – entre outros), temos cerca de 83 bilhões de neurônios em nosso cérebro. Até então a ciência achava que tínhamos 100 bilhões, mas era um número aproximado, sem comprovação científica. Na publicação original de meu livro onde esse fragmento é parte do capítulo final escrevi 100 bilhões e não cerca de 83 billhões como aqui refiz.
[4] Durante décadas, fisiologistas concentravam suas pesquisas nos neurônios como os principais comunicadores do cérebro. Achava-se que as células gliais, apesar de superarem os neurônios na proporção de nove para um, tinham somente papel de manutenção: levar nutrientes dos vasos sanguíneos para os neurônios, manter um equilíbrio saudável de íons no cérebro e afugentar patógenos que tivessem escapado do sistema imunológico. Nos últimos anos, técnicas mais sensíveis de imagem mostraram que neurônios e células gliais dialogam entre si, do desenvolvimento embrionário até a velhice. As células gliais influenciam a formação de sinapses e ajudam a determinar quais as conexões neurais se fortalecerão com o tempo. Essas alterações são essenciais para o aprendizado e o armazenamento de memórias duradouras. Trabalhos mais recentes mostram que as células gliais também se comunicam entre si numa rede independente, mas paralela à neural, influenciando o desempenho do cérebro. Os neurologistas ainda estão cautelosos e evitam atribuir importância à glia, rápido demais. Apesar disso, estão entusiasmados com a perspectiva de que mais da metade do cérebro permanece inexplorado e pode representar uma mina de ouro em informações sobre o funcionamento da mente.

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