PÁGINAS

sábado, 11 de agosto de 2012

O CALENDÁRIO CÓSMICO DE CARL SAGAN

GILSON LIMA.
"O que em mim sente está pensando" (Fernando pessoa)
Dr. Pesquisador - CNPQ - Porto Alegre.E-mail: gilima@gmail.com
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Da crença numa Terra plana para a Terra redonda, da Terra imóvel (localizada no centro de um Universo finito de Aristóteles) para uma Terra que se movimenta como um pião num cosmo infinito, onde a Terra é um simples satélite que gira em torno de uma estrela periférica localizada num pequeno sistema solar presente no final da calda da Via-Láctea, uma modesta galáxia.
Vivemos agora num mundo externo ao sujeito, em ordem, ordenado, estável com determinismo causal e, sobretudo, sem tempo, que tem uma estrutura implícita em que o sujeito exógeno a observa, descreve, decifra e compreende os segredos intrínsecos dessa estrutura mecânica através da mensuração metódica e objetiva.
Galáxias são grupamentos de bilhões ou trilhões de estrelas, planetas, gases, nebulosas e poeira cósmica que orbitam em torno de um mesmo centro de atividade cósmica e se mantêm coesas pela própria ação da gravidade. O conjunto das galáxias forma o Universo. Calcula-se que existam aproximadamente mais de 2 trilhões delas, das quais alguns milhares já estão catalogadas. São classificadas em espirais, elípticas ou irregulares. As galáxias também se reúnem em grupos: os Aglomerados Galácticos. E estes, por sua vez, reúnem-se nos chamados Super Aglomerados Galácticos. O diâmetro do Aglomerado Galáctico ao qual pertencemos é de aproximadamente 4 milhões de anos-luz e, o do nosso Super Aglomerado, de 150 milhões de anos-luz.
A galáxia onde está o sistema solar é chamada de Via-Láctea. De tipo espiral, tem um diâmetro de 100.000 anos-luz e contém cerca de 200 bilhões de estrelas. Três galáxias são visíveis da Terra a olho nu: a Pequena e a Grande Nuvem de Magalhães, galáxias-satélites da Via-Láctea, e Andrômeda, situada a 2 milhões de anos-luz da Terra (1 ano-luz equivale a aproximadamente de 9,5 trilhões de km). A distância da Terra ao Sol é de 16 milésimos de milésimos do ano-luz (a luz gasta 8 minutos para sair do Sol até chegar à Terra); e a distância com relação a Plutão, 62 centésimos de milésimos do ano-luz. A estrela mais próxima do Sol, Próxima Centauro, está a 4,2 anos-luz de nós.
Em 1924, o astrônomo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), com o auxílio do telescópio do Observatório Monte Wilson em Washington (EUA), demonstrou a hipótese de Galileu Galilei de que as galáxias são conjuntos de estrelas e não nuvens de gás, como alguns cientistas consideravam até então. No ano seguinte, Hubble demonstra que elas se afastam umas das outras em um movimento constante de expansão que teria começado com o Big Bang. O estudo das galáxias - iniciado por Hubble - tem originado a maior parte das descobertas e teorias sobre a estrutura e a origem do Universo.
Em 1997, o astrônomo holandês Marijn Franx e sua equipe localizam a galáxia mais distante até hoje descoberta, situada a 13 bilhões de anos-luz da Terra. Quando a luz que hoje recebemos dessa galáxia foi emitida, o Universo tinha menos de 1 bilhão de anos e tamanho 5,92 vezes menor do que hoje. A descoberta foi possível por meio da combinação de imagens dos telescópios Keck, no Havaí, e Hubble.
Nas décadas de 70 e 80, foi construído o maior telescópio espacial até então. Recebeu o nome de Hubble em homenagem a Edwin Hubble. O "Hubble" se encontra em uma órbita baixa, a apenas 600 km da superfície da Terra e gasta 95 minutos para dar uma volta completa em torno de nosso planeta. Se estivesse no solo, seria considerado de porte médio. Ele é um telescópio refletor com espelho principal de 2,4m de diâmetro (o maior telescópio do mundo tem 10m de diâmetro).
O "Hubble", na realidade, é um verdadeiro observatório no espaço, possuindo instrumentos necessários para vários tipos de medidas. Os seus objetivos podem ser assim resumidos: 1- investigar corpos celestes pelo estudo de suas composições, características físicas e dinâmicas; 2- observar a estrutura de estrelas e galáxias e estudar sua formação e evolução; 3- estudar a história e a evolução do Universo.
Algumas conseqüências de suas várias descobertas que merecem destaque: questionamento sobre a idade e o tamanho do Universo; provável confirmação da formação de sistema planetário junto com a formação da estrela central; existência de buracos negros no centro das galáxias etc..

O calendário cósmico trata-se de um recurso didático que permite compreender a interessante explicação sobre a origem da vida pela cosmologia evolutiva. Sagan convida-nos a imaginar a história do Universo comprimida num único ano. O Big Bang começou então no primeiro segundo de 1º de janeiro. Na primeira fase do Universo, a radiação dominava a matéria. Durante a Era da Radiação, nada haveria a observar além da luz intensa. As imensas quantidades de energia radiante produziram, nessa ocasião, uma bola de fogo espetacularmente brilhante, em cujo interior não se podiam formar átomos nem moléculas. Ao expandir-se, o Universo esfriou e se rarefez. Originando-se da radiação, a matéria, aos poucos, coagulou-se em átomos. Esse processo deu-se, segundo a cosmologia, há 15 bilhões de anos aproximadamente.
No calendário cósmico, cada mês significa 1 bilhão e 250 milhões de anos, cada dia 40 milhões de anos e cada segundo, cada piscar de olhos no tempo do drama cósmico dura 500 anos.
No calendário cósmico, somente em maio a Via-Láctea se formou. Em junho, julho e agosto já podia haver sistemas planetários, mas o Sol e a Terra só surgiram em meados de setembro. A vida, essa complexa energia vital colada em pequenas unidades de matéria, apareceu logo depois.
Ao inaugurar-se a Era da Matéria, esta passou a dominar sobre a radiação. E, desde então, continuou dominando e formando sucessivamente as galáxias, as estrelas, os planetas e a vida. De todos os agregados de matéria conhecidos no Universo, as formas vivas são, certamente, as mais fascinantes, especialmente as que gozam da condição de membros de civilizações tecnologicamente avançadas. Formas de vida tecnologicamente inteligentes diferem fundamentalmente das formas inferiores de vida e de outros blocos de matéria disseminados no Universo não apenas por serem capazes de manipular a matéria, como por poderem alterar o curso da evolução.
A emergência de vida tecnologicamente inteligente na Terra, como possivelmente em outros planetas, anuncia uma era inteiramente nova – a Era da Vida (segundo Sagan, a “apenas” 3,5 bilhões de anos). O domínio de um sítio onde residem seres vivos com capacidade de incidir, através de tecnologias inteligentes sobre a evolução cósmica, permite acelerar o processo de controle e de independência da vida sobre a matéria.
Outra demonstração didática criada por Carl Sagan para ajudar-nos a entender a evolução cósmica é a da espacialização do calendário cósmico acima referido. Sagan nos pede para imaginar o tamanho do cosmos como o de um campo oficial de futebol. Ali, neste espaço imaginário, toda a história da vida humana ocuparia o tamanho correspondente ao de uma palma da mão. Toda a história da escrita ocuparia apenas os últimos segundos, do último minuto, do último dia do calendário cósmico (31 de dezembro). Os primeiros seres humanos vieram ao universo às 22h30min do dia 31 de dezembro. Portanto, 14 minutos depois de chegarem ao Universo, os seres humanos já tinham conquistado o fogo. Às 23h59min20s da noite do último dia do ano cósmico surgem a agricultura e a criação doméstica de animais. Às 23h59min35s, as comunidades agrícolas evoluem, tornando-se habitantes das primeiras cidades.
Nós, os seres humanos, aparecemos recentemente na história cósmica. Tão recentemente que nossa História ocupa somente os últimos segundos do último minuto de 31 de dezembro do calendário cósmico de Sagan. No vasto oceano que esse calendário representa, todas as nossas memórias estão confinadas num pequeno quadradinho.
Todas as pessoas de que já ouvimos falar viveram num ponto deste quadradinho. Todos os reis, todas as batalhas, as guerras, tudo que existe em livros, filmes, aconteceu nos últimos 10 segundos do calendário cósmico.

domingo, 5 de agosto de 2012

Entrevista com Gilson Lima - publicada em 1999

Segue longa entrevista de Gilson Lima publicada pelo  Jornal Jornal NH da RBS em 1999. 
Aqui fiz apenas pequenas atualizações de datas. É o texto bruto encaminhado a equipe de jornalistas da época. Vejam que há tempo defendo as mesmas coisas que infelizmente ainda não foram totalmente entendidas pelos meus colegas das ciências humanas até hoje.
O material fazia parte de um complemento sobre a vida no próximo milênio. Nesse período era colunista do Jornal Adunisos e professor de sociologia e política do Centro de Ciências Humanas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Nesse período já desenvolvia, também, nesta mesma universidade, um trabalho sobre o impacto do computador na sociedade e na empresa no Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas no curso de informática. 

1. No Brasil, passamos pela colônia, pela monarquia, pelo presidencialismo e um curto espaço de tempo pelo parlamentarismo. Qual a tendência para o Brasil? Seguir no presidencialismo? 

O brasileiro tem um pensamento mágico. As pesquisas de opinião no Brasil sempre são carregadas de problemas analíticos na sua interpretação. O brasileiro em geral possui um senso comum movido pelo pensamento mágico. Estamos sempre a procura de salvações milagrosas, heróis, dramalhões. Na política, isso implica uma forte tendência de pessoalização, assim penso que o presidencialismo, apesar de ser um sistema mais simplificado e primário deve permanecer por um bom período na nossa engenharia institucional estatal. De qualquer forma, o próprio Estado não será mais o único ator da esfera pública. O processo de uma esfera pública não terá apenas o Estado-Nação como o proprietário e dono, a esfera pública se tornará complexa e será cada vez mais compartilhada por múltiplos agentes e atores. 

2  - O Brasil já atingiu a plena democracia? Se não, o que falta para atingi-la?

Sua pergunta é muito complicada. A concepção de democracia representativa é extremamente limitada, está em crise no mundo todo, assim, como o moderno Estado Nação com seus vínculos tecnológicos defasados numa sociedade disciplinada para um mundo do trabalho inalterado desde o século XIX.

3 - A cidadania brasileira já é uma conquista plena? O que falta para sermos verdadeiros cidadãos?

Nós temos um problema que é histórico. Vejamos. Cidadania deriva da idéia de cidade. A moderna cidade comercial européia eram provenientes de feiras com muito comércio. O servo que conseguisse ao fugir de um feudo ligado a um Senhor e permanecesse nessas cidades por um ano e um dia ganharia a liberdade de ali permanecer independente da vontade de seu senhor. Temos aí a noção de que a cidade liberta. É a mesma idéia que motivou os enormes fluxos migratórios provenientes do êxodo rural. A cidade lembra progresso, prosperidade. No Brasil, a fazenda do coronel sempre teve uma autonomia praticamente absoluta em relação as cidades. Elas assumiram muito mais um aspecto administrativo (Prefeituras, Igrejas, Praças, Delegacia, etc..). A fazenda era auto-suficiente. As cidades industrializadas, excetuando São Paulo e algumas outras exceções, só ganharam força pela indulgência e proteção do Estado. As cidades, na sua maioria, já nasceram sob a dependência do Estado. Nossa experiência de cidadania é atrofiada. Falta muito para um exercício maduro da cidadania, entretanto temos dados passos bem largos de consolidação da democracia representativa, talvez os mais sólidos que até hoje já demos. Passamos por crises institucionais bem graves, passamos pela experiência raríssima de um não permitirmos um Presidente eleito continuar a exercer seu mandato, etc. entretanto, a cultura política da representação vive uma crise sem precedentes não só nos países como o Brasil, mas em todo o mundo ocidentalizado, nós certamente vamos ter que fazer um grande esforço para superar os limites da democracia representativa sem retroceder sobre suas frágeis conquistas.  

5 - Como a cidadania vem se expressando no Brasil? Como os cidadãos tem se organizado?

No Brasil, a sociedade civil vive uma ressaca da intensa participação dos anos 80 e início dos anos 90. Isto implica num certo recuo diante da crença pelas mudanças através de grandes eventos massivos. Revela também uma certa decepção quanto a capacidade de implementar rápidas e profundas transformações pela política. O espaço da engenharia institucional é extremente tomado por encruzilhadas e becos sem saídas. Um grupo de velhas raposas já conhece muito bem as armadilhas. A exigência por mudanças se dá num território público, nas ruas,  nas praças, nas diversas entidades não governamentais. Entretanto a execução das mudanças exigidas se dão num palco num território inacessível aos agentes sociais mobilizados. É aqui que entra as defesas, os freios os desvios e nossa elite é muito hábil e muito inteligente em produzir transformismos, ou seja, transformações sem transformações, revoluções sem revoluções. Essa impotência, essa ineficácia, esse hiato entre o enorme esforço de se movimentar-se em prol de lutas sociais e suas demandas e o balanço extremamente tímido de suas conquistas, certamente é a matéria prima mais importante do desencanto atual com a política, dessa expressão de apatia política do final dos anos 90.

6 - Que grupos existem que revelam a luta pela cidadania?

Numa sociedade cada vez mais em rede, a participação assume uma ruptura cada vez mais visível com as lentas abordagens representativas oriundos de instituições políticas ou sociais originárias da moderna sociedade industrial. É cada vez mais visível o surgimento de interações, de interfaces comunicacionais, estejam ou não ligadas à centros de pesquisa e de produção de conhecimento complexo. O território da cidadania física passa a conviver com a cidadania virtualizada que é formatada por uma estruturação dialogal através de uma cultura imaterial, moldada por conexões que envolvem moldes, telefones, computadores, websites, satélites, ... Um vez disse um pensador espanhol Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias", hoje, eu diria: "Eu sou eu e minhas conexões", de conteúdos com mensagens extra-comunicantes, que podem ser ao mesmo tempo compartilhadas e modificadas em ambiente em rede. O papel, as fotos tratadas quimicamente, os muros das cidades, etc. deixam lugar para menus eletrônicos, para corrida de pontos luminosos em formato de pixels multidirecionais, para os sinais sonoros digitalizados, ou seja, o mundo se fixa nas telas dos tubos catódicos (agora com imensos display de Led), enfim, somos produtos e produtores de um mundo de fluxos elétricos que formam ondas de significação simbólicas e cada vez mais em tempo real.
A sociedade em rede produz uma radical ruptura com a era moderna. As imagens são cada vez menos resultantes do olhar, da interação do suor testa a testa, da reação direta de comportamentos ambientes desconectados somos capturados por máquinas (câmaras) que capturam e prolongam a observação em inscrições de cálculos matemáticos que dialogam em tempo real com o as máquinas computacionais e  provocam uma nova gama de comportamentos e geração de toxinas emocionais recontextualizadas pelas novas redes midiáticas. Agora  nossas moléculas atuam em simbiose com a numeralização digital da realidade das imagens  e sons analógicos são integradas ao ambiente digital através de escaneamento tornando-se um tecido de pontos organizados que podem ser manipulados infinitamente.
No espaço das redes a política passará a ser tratada como evento comunicacional que possibilita trocas de informações, sobretudo, através de encontros e interações à distância. A política se centrará cada vez mais nas redes telemáticas onde pensamentos, conceitos serão cada vez mais modulados e trocados por outros conceitos em fluxos hipertextuais, não interessando mais as noções de ideologias de base, ou de demarcações físicas de territórios partidários. A própria representação tenderá ser substituída por uma ideia de fluxo permanente. As comunicações em rede demandam um pensamento incompleto, associativo, não linear, explorado por estruturas manipuláveis através de links, o corpo assume a capacidade de circular no planeta, entrando em intimidades privadas e invandindo os restritos espaços públicos representativos dos cafés e praças modernas. 
Na política interativa em rede, a sua base será a metamorfose. Para que a troca dialogal seja possível é necessário uma assistência tecnológica através de máquinas, sensores, capacetes, luvas, mouses, teclados, etc. São dispositivos responsáveis por registrar, traduzir, transmitir o nosso comportamento, nossas ideias e até sentimentos. São dispositivos que possibilitam uma interface com as redes numéricas. O conceiro de inter-face, é diferente e diverso do sur-face (francês e inglês = surface, ou superfície) ou sobre a face. Quando falamos em interface na rede, temos que pensar em contatos de superfícies diferentes que se conectam de alguma forma fazendo corpos diferentes partilharem de uma mesma decisão. As interações são inter-relações ou inter decisões operadas em tempo real por elétrons, moléculas e corpos diferentes. 
Acreditamos que o poder político deixará de ser tão facilmente delimitado, deixará de ter dono. O político deixará de ser atividades representadas pela autoria - ainda que delegada - de uma só pessoa (o político profissional), o partido deixará de possuir o monopólio da moderna representação do poder público. Na sociedade em rede, o exercício da política passa a ser intensamente comunicacional, ou seja, será delimitado por fronteiras compartilhadas por uma multidão de autores com seus efetivos participantes num processo intenso de fluxos comunicacionais. Assim, a política pode deixar de ser subserviente às elites dominantes ou legitimada por uma elite social ou econômica. A política em rede não estará submetida as hierarquias. Existe a grande possibilidade de uma reconciliação da política com a vida cotidiana.

7 - Politicamente falando, para o próximo século e milênio que se iniciam, quais os sistemas de governo que sobreviverão? Qual a tendência mundial?

É difícil saber, sabemos apenas que os atuais sistemas não dão mais conta da complexidade social. Se eles vão ou não conviver com as novas dinâmicas societais do futuro e como se dará esta convivência é uma questão que não temos respostas precisas ainda. Entretanto essa pergunta nos coloca diante de dois termos chaves. O primeiro é o de sistema e o segundo é o de governo.
A ideia de sistema na política esteve durante muito tempo ligado a uma abordagem mecaniscista. A sociedade era vista como parte de um grande mecanismo do qual era necessário organizar peças fundamentais num mecanismo (um sistema) capaz de dar ordem e precisão ao seu funcionamento, ou seja, ao funcionamento da sociedade. A ideia de sistema visava então dar conta do processo da gestão política da sociedade. Durante muito tempo por influência ocidental e do iluminismo, E por conseqüência da razão moderna, pensamos que a engenharia institucional seria suficiente para enfrentarmos os desafios da vida em sociedade. 
A ideia de governo, também pela influência  do pensamento euro-ocidental e, sobretudo, do iluminismo esteve muito voltada ao âmbito da governabilidade das ações do Estado. Política, público, principalmente no Brasil, era praticamente sinônimo de Estado. A idéia de governabilidade era praticamente restrita ao Estado enquanto agente condutor e dirigente da gestão pública, ou seja, o público era o próprio Estado, principalmente no Brasil, fundiu-se no Estado.
Do ponto de vista da política a questão do poder estará voltado cada vez menos para a matéria ou para as regulamentações jurídicas e sim mais para o controle da informação e do conhecimento complexo, ou seja, estará girando  em torno dos problemas e soluções macro societais diante dos impactos da aceleração tecnológica. A Informação digital migrará cada vez mais para uma interação com a informação genética. A política estará a volta sobre o controle da informação orgânica e sua interação com os múltiplos meios inorgânicos que serão decisivos para a vida na sociedade. Também o poder político estará a volta diante de problemas e soluções diante do impacto do envelhecimento populacional. Muito provavelmente em 2050 a população acima de 50 anos será superior a de menos de 50 anos. Seremos um planeta de vovôs e vovós sem netos ou netas. Essa é uma novidade que a civilização humana ainda não experimentou. Também o poder político estará a volta com a questão de:  "como inventar uma sociedade para além do trabalho-renda, ou da renda-trabalho". Cada vez viveremos mais e trabalharemos menos. Hoje a população mundial atual é 12 vezes maior que na época do gênio Isaac Newton. Segundo o cientista social Italiano o professor De Masi, a nossa média de vida hoje de 700.000 horas  é seis vezes mais longa de que o homem de Neanderthal  (EUROPA) e mais que o dobro dos nossos avós (300.000 horas). Segundo De Mais, eles – nossos avós – trabalhavam 120.000 horas no curso de suas vidas, enquanto nós trabalhamos 80.000. Os nossos filhos, por sua vez, viverão em média 900.000 horas e trabalharão não mais do que 50.000 horas.
São questões que os sistemas modernos não tem como responder, teremos de reinventarmos a vida em sociedade. Sofremos muito a influência euro-centrista e pensamos condicionados por uma idéia de história linear, encadeada e condicionada em direção a um tempo evolutivo em ritmo de repetição e melhoria (idéia de progresso). Durante muito tempo acreditamos numa racionalidade universal, na emancipação humana diante das conquistas da investigação científica e das teoria jurídicas da cidadania. Hoje vivemos, ao contrário, o paradoxo de estarmos diante de conquistas tecnológicas que desabrocham em ritmo alucinante a aso mesmo tempo sofremos com uma crise profunda da sociedade ocidental, da incapacidade da razão dar conta de todas suas promessas emancipatórias. Encontramos, ao contrário, regimes corruptos, gastos excessivos com militares, incompetência burocrática, protecionismo à interesses pessoais, falta de proteção jurídica, fundamentalismo religioso e outros diversos obstáculos ao comércio existentes em muitos países da América Central, Oriente Médio e África ao sul do Saara. É a antítese da moderna sociedade industrial.
A questão é que vivemos num mundo de aceleração tecnológica, a tecnologia condiona multiplas manifestações culturais (religiosas como por exemplo: Padres Marcelos, cultos neo-evangélicos, etc..., manifestações artísticas tecnoestéticas, integrações econômicas e desterritorialização da renda financeira, novos usos e novas dinâmicas educacionais, ou seja, somos hoje filhos da ''civilização da imagem”, mas ainda somos ainda filhos carentes de uma pedagogia da imaginação, etc.). 
Alguns estudiosos imaginam utopicamente um mundo coberto por empresas multinacionais hipereficientes que competem entre si e levando melhores produtos a consumidores cada vez mais exigentes em todos os  cantos desse mesmo mundo. Neste mesmo mundo os governos se tornariam praticamente invisíveis. Em se tratando de uma pessoa bem intencionada, essa perspectiva, é no mínimo uma visão de quem está em surto.
Hoje as regiões pobres, que reúnem a maioria da espécie humana no planeta, são carentes e pobres, elas precisam de enormes investimentos em melhorias sociais e não de assimilarem efeitos liberadores da teoria econômica. A África, por exemplo, tem no seu interior países predominantemente agrários que duplicam a população a cada 25 anos. Carecem muito mais de planejamento familiar, proteção ambiental, assistência a saúde, educação e infra-estrutura básica. As multinacionais terão interesse em financiar este projeto?
Chegamos ao final deste milênio com uma cultura civilizatória complexa e que nunca foi tão rica, mas que também nunca foi tão desigual. Por exemplo: A concentração do patrimônio conjunto dos raros 447 bilionários existentes no planeta eqüivale a renda somada da metade mais pobre da população mundial, ou seja, 447 famílias tem o mesmo que 2,8 bilhões de pessoas. Em 1960 os ricos ganhavam 30 vezes mais que os pobres, a concentração da renda mundial mais do que dobrou. Em 1994, os 20% mais ricos abocanharam 86% de tudo o que foi produzido no mundo. Sua renda era 78 vezes superior à dos 20% mais pobres. Segundo a ONU com a intensificação do atual e dominante projeto planetário, somente os africanos podem perder 1,2 bilhão ao ano com sua implantação. Em 34 anos, o quinhão dos excluídos na economia global minguou de 2,3% para apenas 1,1%. Os países mais pobres concentram 10% da população planetária e detém apenas 0,3% do comércio mundial, a metade do que detinham há 20 anos. 
Por fim, as tarifas alfandegárias caíram muito mais no terceiro mundo do que no primeiro, que continuam a subsidiar setores como agricultura, impondo perdas para os países em  graves dificuldades sociais.

8 - A manter essa tendência qual ou quais as perspectivas para o próximo milênio? tecnológica?

Veremos a existência de uma minoria da população, no máximo 20% vivendo em alguns bolsões tecnológicos. Uma espécie de aristocracia geneticamente melhorada, com seus corpos contendo além de informação genética qualificada, integrações de artefatos inorgânicos com orgânicos potencializando suas atividades vitais e estendendo qualificadamente suas jornadas de vidas.
Os 80% da população poderiam manifestar reações diversas. Poderiam desencadear uma vasta migração para as partes mais ricas do planeta; outros que ficariam em seus territórios se entregariam a um fundamentalismo religioso, negando os valores ocidentais (em especial o consumismo ostensivo); outros diante da falência da razão buscariam intensificar a recuperação do pensamento mágico, ou seja, salvações milagrosas, do tipo: literaturas esotéricas,  etc. 
O certo é que novas tecnologias principalmente a biotecnologia e a robótica ao manter a mesma concepção societal, podem prejudicar mais ainda as modernas sociedades, tanto na agricultura, na indústria como nos serviços. A aceleração tecnológica baseia-se em avançados processos de gestão que eliminam significativamente atividade humana no mundo do trabalho. Isto tem uma implicação global, inclusive nos países chamados de “desenvolvidos”. Por Exemplo: especialistas calculam que a tecnologia ameaça quase ¾ dos empregos somente nos Estados Unidos.
O Cientista social italiano chamado De Masi afirmou que em quatro décadas fizemos mais progresso que nos 40.000 anos precedentes. E, diante de uma produção tecnológica tão rica e tumultuada ( computadores, fax, laser, satélites, robôs, fibras óticas, novos remédios, máquinas interativas), de novo como no tempo de Aristóteles, há os que esperam que este ritmo permaneça uniformemente acelerado e os que, ao contrário, começam a sentir a sensação de que já foi descoberto tudo o que havia para descobrir, e, portanto, só nos resta a missão de difundir as vantagens da nova era e nos dedicar novamente, como no tempo dos gregos e romanos, ao progresso intelectual. Uma fibra ótica, por exemplo, com espessura de um fio de cabelo pode transmitir 500 canais de TV simultaneamente, também, a fibra ótica, a “Enciclopédia Britânica”- a mais conhecida do mundo - seja processada em apenas 13 segundos. Vivemos num planeta com cerca de 800 milhões de aparelhos de TV e de 1 bilhão e 500 milhões de receptores de rádios. Vivemos a teleparticipação planetária (diariamente nos tubos catódicos como: dramas e melodramas, incidentes, guerras, etc.). Vivemos a ascensão da publicidade global. 
Entretanto, apesar de todos os avanços tecnológicos, a comunicação global, entretanto, não foi democratizada: A África tem menos de uma linha telefônica para cada 100 habitantes, enquanto na América do Norte, Oceania e Europa a taxa supera 25 para cada 100 habitantes. 
Podemos dizer que inciamos um processo de ascenção de uma nova classe dirigente mundial, para além da elite industrial. Eles possuem uma alta capacidade de exercício do poder e de dominação, sobretudo, diante doi uso e da interação com as novas tecnologias. São conhecidos como analistas simbólicos (cientistas, tecnólogos, biotecnologistas, projetistas de software, editores, etc..., ou seja, pessoas capazes de produzirem insights de alta qualidade e de produzirem  idéias com grande valor agregado ).
Ao aproximar-se o século XXI, portanto, os novos povos da Terra parecem estar descobrindo que suas vidas estão sendo cada vez mais afetadas por forças que são, no sentido pleno da palavra, irresponsáveis. Do ponto de vista societal são elites que estão dispertando para o mundo, como crianças são egoncêntricas, destroem o presente, não querem administrar as heranças do passado (as decadentes cidades industriais, o Estado Nacional e suas burocracias, etc.), mas, entretanto, não colocam uma outra sociedade no lugar.

9 - O mundo viveu grande parte deste século dividido entre o comunismo e o capitalismo. Qual a tendência para o século XXI? A Terceira Via proposta pelo ministro Tony Blair tem futuro?

Compartilho uma visão com alguns cientistas sociais, infelizmente ainda poucos, sobre o conflito dual entre capitalismo e comunismo. Nesta visão numa perspectiva macro societal não vemos de modo tão antagônicos o comunismo e o capitalismo. O comunismo moderno - não as utopias comunistas pré-modernas - e o chamado capitalismo são na verdade produtos de um único paradigma societal: o de uma moderna sociedade industrial. Um evoluiu por uma perspectiva de conflitos de mercados (sociedade fordista, distribuições diretas e indiretas do produto industrial); o outro evoluiu a partir de uma via revolucionária, pela indução da coerção estatal. Um queria e implementou de modo mais planejado a distribuição dos ganhos da produção societal, o outro pela via do mercado empresarial com menos enfoque distribitivista. Um acredita num papel mais dinâmico da sociedade civil, o outro da sociedade estatal, entretanto, os dois são produtos de um mesmo paradigma: o da moderna sociedade industrial.
A derrota do modelo soviético, não elimina a crise do modelo industrial diante das novas e complexas exigências societais. Diríamos que houve uma derrota mas não temos nenhum ganhador.
Quanto a questão de se a Terceira Via proposta pelo ministro Tony Blair tem futuro, eu diria que, a curto prazo sim, mas a médio prazo não. No Brasil quem está tentando encabeçar a proposta da Terceira Via é o candidatável Ciro Gomes. Acredito como estratégia eleitoral para a próximas eleições ela pode ser até bem eficaz. Do ponto de vista mais científico, a Terceira Via ainda está presa às heranças da moderna sociedade industrial, essa proposta não consegue dar uma resposta complexa para os desafios de uma vida em uma sociedade pós industrial, uma sociedade movida por uma economia do conhecimento em rede. 
Na verdade o conflito do poder não está mais concentrado nas fábricas, no Estado. Vivemos uma sociedade onde a dinâmica é marcada pelo acesso às informações diferentes que fazem a diferença e ao conhecimento complexo. Foi-se o tempo do monopólio da representação política dos partidos. Veja que hoje podemos ir a Lua em cinco dias e delegamos decisões importantes da vida em sociedade para mandatos de 4 ou 5 anos. Dominamos tecnologias para uma sociedade que pode gerir-se em tempo real sobre quase tudo, mas continuamos reproduzindo modelos institucionais do iluminismo moderno. 
Entretanto, a explosão da informação em rede é indicadora de um dilema complexo. O tecnopoder acelera a conquista de uma civilização capaz de experimentar o clímax de sua existência evolutiva. A sociedade do conhecimento nos projeta para um cotidiano de um córtex que anseia cada vez mais intensamente por informação, mas não consegue nem contê-la, nem mais processá-la criativamente. Como darmos conta de infinitos pixels que circulam em nanosegundos? Como não conseguimos dar conta recorremos a especialização. Assim, a especialização que no passado foi uma manobra para coletar informações e processos metódicos visando a agilizarmos procedimentos funcionais, é agora, uma manifestação de nossa incapacidade de gerirmos informações e conhecimentos complexos na sobrecarca informacional de uma sociedade estruturada em rede. A pressão planetária significativa não é mais a da clássica gravidade, descoberta por Newton. A pressão planetária mais significativa atualmente é a do impulso de informações diferentes que fazem a diferença. Certamente o corpo deverá irromper seus limites biológicos, culturais e planetários para dar conta desta nova pressão. Para isso o poder político que quer se fazer contemporâneo no presente deve estar atento e oferecer propostas e alternativas.
Hoje no planeta, já vivemos numa sociedade dominada por uma economia cada vez mais desmaterializada, cada vez mais, desterritorializada, reina cada vez mais a hegemonia, ou seja, o domínio do tecnopoder. Neste sentido,  precisamos encontrar uma alternativa de longo prazo para suas miopias. 
Podemos datar, ainda que simbolicamente, o  nascimento e a emergência fulminante do domínio do tecnopoder no mundo com um projeto que a partir de agosto de 1942 passou a se denominar DSM-PROJECT (Development of Substitute Materials) ou mais popularmente chamado de Projeto Manhattan.
A partir da emergência do tecnopoder, a ciência, torna-se uma adversária do saber fazer. É considerada um campo do conhecimento meramente abstrato e passa a ser desconsiderada. O mais interessante que foi o mesmo processo que se procedeu com a ciência européia quando do seu nascimento, ou seja, a ruptura moderna com o saber presente na era medieval. A ciência, neste período, distanciou-se da filosofia por considerá-la abstrata e da teologia por considerá-la dogmática e tradicional.
A partir do Projeto Manhattan, tendo-o como um acontecimento histórico, a tecnologia conquista um estatuto autônomo do saber, que passa a ser sinônimo de um saber fazer mais, de um saber fazer melhor e de uma saber fazer ao mesmo tempo cada vez mais barato. Esse saber instrumental cresceu em proporções tão grande que gerou uma simbiose  homem-máquina, uma dependência cada vez mais intensa, entre homens e máquinas. Esse processo é tão intenso que uma vez ouvi do presidente de uma mega empresa - uma das maiores concorrentes do Bill Gates - que: se reunisse-mos as dez maiores e mais conhecido cérebros ligados a arquitetura computacional (que mais entendem de construir computadores) eles não conseguiriam fazer sozinhos nem uma modesta máquinas computacionais das atuais que hoje produzimos, ele precisariam contar com a ajuda de outras máquinas e até mesmo alguns robôs. 

11- Quais as implicações do domínio do tecnopoder? 

São várias as implicações do tecnopoder, por exemplo, um dos impactos mais violentos do tecnopoder na esfera societal é a de que quanto maior for o envolvimento da tecnologia no mundo do trabalho menos emprego e atividade humana teremos. Este saber fazer tem gerado, ainda que de modo incipiente um mal estar produzindo  uma crise no saber pensar mais complexo na esfera societal diante dos impactos de suas inovações concretas. Tem produzido novos desafios sociais e políticos a partir do molduramente de suas novas práticas de pesquisas complexas submetidas às realizações ainda, quase na sua totalidade motivadas por incentivos mercantis dos megalaboratórios de pesquisas assistidas que oferecem ambientes tecnológicos de ponta para produção de conhecimento complexo. Esses mega laboratórios apesar de suas amplas capacidades de financiamento estão presos à vinculações restritas das regras das empresas globais ou de empreendimentos militares, sobretudo, das forças armadas norte americanos. Hoje, já começamos a vislumbrar uma crise dessa hegemonia do tecnosaber.

12 - Para finalizar, como se pode constituir uma contrahegemonia que possa dar conta dessa complexidade que o futuro nos indica?  

Precisamos de uma alternativa que não seja mais um modismo pós-moderno. Pensamos que essa alternativa de poder está muito próxima a um insigth muito criativo obtido por um cientista social francês um pouco antes de sua morte, esse cientista se chamava Michael Foucault. Ele vislumbrou de modo genial naquele período, algo que apenas estamos dando conta agora. Trata-se da importância dos cientistas sociais enfrentarem uma biopolítica que contraponha a hegemonia do tecnosaber, que implica na ascendência de um biopoder.
Foulcaul, vislumbrou apontamentos da superação do tecnosaber, ainda que  de modo embrionário. Ele apontou suas fraquezas, ou seja, sua incapacidade de produzir um saber pensar complexo, alertou para a crise da hegemonia do saber fazer, da hegemonia do tecnopoder. Ele apontou para uma retomada do saber complexo da vida diante das implicações e dos limites do saber tecnológico.
Vivemos a desterritorialização da física matéria, dos objetos, novas implicações de relatividade de tempo e espaço, emerge cada vez mais uma sociedade em rede e em tempo real, que nos distanciam das respostas do poder hierárquico das físicas e estáticas instituições que visam disciplinar o homem-corpo da sociedade industrial, até mesmo, das físicas instituições móveis de contestações (os modernos movimentos sociais). Assim, o biopoder está claramente comprometido com o saber pensar da complexidade. Entretanto ele se opera, se concretiza e também possui implicações propositivas que apontam os limites da hegemonia do tecnopoder.
Foucaul nos lembra, já neste período, de que foi na teoria clássica da soberania que o direito de vida e de morte se torna um de seus atributos fundamentais. Paradoxalmente, com isso, é o próprio Foucault que nos dá uma dica para uma contrahegemonia do tecnopoder, o terreno da biopolítica e o surgimento do biopoder.
Em certo sentido, dizer que o soberano tem direito de vida e de morte significa, no fundo, que ele pode fazer morrer e deixar viver; em todo caso, que a vida e a morte deixa de ter o monopólio de expressão de fenômenos naturais, imediatos, e modo original passa a se localizar no campo do poder político.
A sociedade industrial moderna manteve e alargou as características desta concepção de poder sobre a vida. No plano dos mecanismos, das técnicas, das tecnologias de poder nos séculos XVII e século XVIII elas se tornaram essencialmente centradas no corpo, no corpo individual. Disso se deduzia todos os procedimentos pelos quais se assegurava a distribuição espacial dos corpos individuais (sua separação, seu alinhamento, sua colocação em série e em vigilância  e organização...
Eram também as técnicas pelas quais se incumbiam desses corpos, tentavam aumentar-lhes a força útil através do exercício, do treinamento etc. Eram igualmente técnicas de racionalização e de economia estrita de um poder que devia se exercer, da maneira menos onerosa possível, mediante todo um sistema de vigilância, de hierarquias, de inspeções, de escriturações, de relatórios: toda essa tecnologia, que podemos chamar de tecnologia disciplinar do trabalho. Segundo Foucault toda esta tecnologia disciplinar do trabalho já se encontrava presente,  sobretudo na Europa, ainda que não expandida, já no final do século XVII e no decorrer do século XVIII.
O que Foulcault não poderia vislumbrar é que hoje as tecnologias genéticas nos dirigem para a possibilidade do paradoxo do pós-biológico, ou seja, da vida biologicamente pura. Ao que essa nova técnica de poder não disciplinar se aplica é diferentemente da disciplina e que se dirige ao corpo, não mais ao homemcorpo, mas ao homem vivo, ao ser vivo; ao homem-espécie. Essa política sobre o corpo humano, é algo que já não é uma anátomo-política do corpo humano, mas de uma "biopolítica", a emergência, ainda que embrionária, de um “biopoder”.
Vamos dar uma exemplo, daqui a praticamente 9 anos, em 12 de fevereiro de 2009, o mundo comemorará 200 anos do nascimento de um dos mais famosos cientista da vida o pai do evolucionismo, o inglês Charles Robert Darwin, autor do famoso livro: “A origem das espécies” que ele iniciou a escrever em 1856 e que foi publicado pela primeira vez em 1859.
Segundo os evolucionistas cósmicos a primeira fase do universo foi a radiação. Durante a Era da Radiação uma quantidade caótica de energia viajava pelo espaço sem que pudesse alí se formar átomos nem moléculas. Ao expandir por suas próprias forças a radiação foi coagulando-se em átomos, surge a matéria. Foi segundo a cosmologia um evento incomparável até então, inaugura-se a Era da Matéria. A matéria desde então começou a dominar a radiação, formando sucessivamente as galáxias, as estrelas, os planetas e posteriormente, o mais extraordinário dos eventos cósmicos, a vida. De todos os agregados da matéria as formas vivas certamente são as mais fascinantes, e entre elas, se destaca uma: as das agregações de vida capazes de criarem civilizações tecnologicamente inteligentes. As formas de vida tecnologicamente inteligentes diferem fundalmentalmente de outras formas de vida e de outros blocos de matéria dissiminados no Universo, não apenas por serem capazes de manipular a matéria, mas, sobretudo, por poderem alterar o curso natural da evolução. Com a conquista cada vez maior de tecnologias que permitem controlar a matéria, alterar seu curso natural e diminuir cada vez mais a dependência da vida em relação a matéria, o corpo, inaugura-se um novo tempo, uma nova era: A Era da Vida. O domínio das tecnologias inteligentes permitem que a vida cada vez mais possa controlar a matéria iniciando a mesma transição que ocorreu quando do divórcio da matéria frente a radiação há mais de dez bilhões de anos atrás. A matéria tende a perder cada vez mais seu poderoso e absoluto império de poder sobre a vida. Os cosmologistas evolucionistas não acreditam que esta transição será instantânia. Assim como se levou muito tempo para que a matéria viesse a dominar a radiação serão necessárias longas durações para que isso ocorra. Alguns cosmologistas, mesmo evolucionistas, acreditam, inclusive, que isso jamais irá acontecer definitivamente. Embora não se possa mensurar completamente o ciclo desse processo, uma coisa é certa: A Era da Vida começou, e a matéria começa lentamente demonstrar sua fragilidade, já vivevemos a transição de uma aurora (cósmica) inteiramente nova . 
Essa é uma questão significativa para o biopoder. Recentemente foi lançado um filme chamado “Matrix” que pode ser uma referência didática sobre questões relevantes que o biopoder tem que enfrentar. Antes de descrever alguns comentários sobre o filme Matrix ,vamos avrir um parêntese, um parêntese precisando um pouco alguns termos a idéia de cyborg e sua antítese o andróide. Em primeiro lugar entendemos por cyborg um mecanismo cibernético híbrido (máquina e organismo); uma criatura ligada não só a realidade social mas como a ficção.
A ficção é povoada de cyborgs. Um dos exemplos mais conhecidos foi a famosa série do homem de seis milhões de Dólares. No cinema tivemos, também uma famosa antítese do cyborg no famoso filme Blade Runner que se passa em 2009 e que socializou o termo andróide. Os andróides eram replicantes criados por uma poderosa empresa de tecnologia a Tyrell Corporation. Os replicantes no filme não são robôs, mas simulacros com vida artifical programados para uma duração muito rápida. Os replicantres se revoltaram contra a mísera destinação de apenas quatro anos para eles. Suas queixas eram simples: queriam que seus períodos de vida equiparassem ao da vida humana. É aqui que entra em cena o principal personagem: Deckard, um caçador de andróides que tem a tarefa de eliminar os rebeldes andróides.
A medicina atual está também povoada de cyborgs. Encontramos cada vez mais um versadeiro acasalamento entre organismos vivos e máquinas. Não falamos de transplantes orgânicos, de órgãos que são retirados de um corpo humano ou de um outro animal para outro. Muito menos de manipulação da reprodução da vida sem relação presencial. Falamos de próteses artificial, chips que ampliam a visão ou até mesmo eliminam a cegueira, marcapassos, órgãos sintéticos, próteses colocadas em ógãos sexuais masculinos a fim de eliminar a impotência (neste caso uma relação sexual com esta pessoa não deixa de ser uma relação com um cyborg).
Neste sentido, o andróide é um replicante ligado a uma constante síndrome científica que em outro momento caracterizei como: “Sindrome de Frankeinsteim”, ou seja, a de uma busca e de uma realização perfeita de uma replica da vida humana num organismo totalmente artificial que, entretanto, supere nossos limites físicos, intelctuais e, até mesmo, morais. Os cyborg ao contrário, ainda que preso ao mesmo determinismo tecnológico abre novas possibilidades na relação da máquina com os organismos. Em vez de finalizar a separação definitiva entre o homem e os artefatos artificais ligados a atividades de simulação da vida humana, ao contrário, são de uma maneira perturbadora, simbioses que aprimoram uma estrita ligação entre o orgânico e o inorgânico.
Fechando este parênteses, voltamos ao filme Matrix, nele encontramos máquinas criadas por humanos e totalmente artificais que acabaram por por dominar a dinâmica do espaço e do tempo e entendiam que os humanos (biologicos) eram uma praga do tipo gafanhoto que tinha que ser eliminada. Os humanos só tinham uma possibilidade de enfrentá-los, ou seja, era através da emergência de uma nova espécie de vida, uma mescla entre máquina e organismo humano. 
Isso me remeteu a um livro fascinante de Joël de Rosnay, chamado: “O Homem Simbiótico”. Segundo este cientista, estamos nosa dirigindo para uma outra forma de vida terrestre. Esta forma de vida não pode ser mais considerada como produto da evolução biológica, mas de um processo ainda muito mais complexo produzido pela simbiose entre a ecoesfera, as sociedades humanas e seus “artifícios naturais” (máquinas, organizações, sistemas, redes, cidades). Para este autor a Internet é um dos maiores exemplos de ambiente propício para a emergência da espécie simbiótica. A Internet permitirá realizarmos conecções desta simbiose orgânica e inorgânica a nível planetário.
Os corpos habitam ambientes estranhos e escondem processos que tornam o corpo biológico obsoleto. Os cientistas perguntam, um corpo bípede, que respira, com visão binocular e com um cérebro de 1.400 cm3 é uma forma biológica adequada? O tecnopoder pretende realizar e já está simulando uma montagem de sistemas híbridos de homem-máquina, pretende reprojetar os seres humanos afim de torná-los mais compatíveis com suas máquinas. Os tecnológos vêem o corpo biológico como uma estrutura não muito eficiente nem muito durável, querem mudar sua performance para além de uma performance de idade. Um corpo biológico pode sobreviver somente algumas semanas sem comida, dias sem água e minutos sem oxigênio. Os tecnólogos pretendem vencer o nascimento e a morte, ou seja, produzir vidas sem nascimento e sem morte, tornar a vida imortal, pós-biológica. 
Para finalizar, a biopolítica, tembém, tem que se preparar para dar respostas aos problemas complexos que surgirão quando da integração da informação digital com a informação genética. Como já sabemos, as tecnologias da informação digital está imersa no dilema de uma lei. Trata-se da famosa Lei de Moore, elaborada por Gordon Moore, um dos co-fundadores da empresda Intel, uma mega indústria de chips e processadores digitais. Ele observou em 1964 que o número de transistores que cabia num chip de silício duplicava a cada ano e meio. Isso permite a minuiaturização, rapidez no processamento e, principalmente, o barateamento dos artefatos digitais. Esta observação tem se comprovado até então e segundo uma projeção desta lei em 2012 chegaremos ao limite físico do silício. Assim as pesquisas de substituição do silício estão se dividindo em dois grandes grupos:

1. O primeiro busca uma alternativa inorgânica, ou seja outros materiais químicos como gases nobres por exemplo. Ou através de raios X ou óticos buscando alternativas para um novo limite físico bem superior ao que o abundante silício pode suportar.
2. O segundo busca uma alternativa orgânica de substituição do silício. Numa mescla cada vez maior entre bioquímica e informáticas esses pesquisadores buscam a criação de chips orgânicos. Por exemplo um grupo de cientistas do Laboratório de Informática do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), dividiram a bactéria do cólera, de tal modo que este fragmento possa agir como um circúito orgânico, por onde trafegam rotas de acesso a dados. As células só trabalhariam apenas enquanto fossem mantidas vivas. Também neste mesmo Instituto existem projetos de computadores baseados em DNA vinculados a instruções via algorítmos genéticos.

Estas experiências quando se tornarem societais e não apenas laboratoriais, vão deflagrar uma verdadeira revolução no processamento das informações e na sociedade em geral, onde será cada vez mais difícil distinguirmos a prótese no humano e a parte carne da máquina, a corrente sangüínea da vida biológica, da corrente eletromagnéticas dos artefatos sensoriais inorgânicos. Pensamos que é através do biopoder e não das abordagens da moderna engenharia institucional que certamente encontraremos respostas mais condizentes aos desafios de defesa da vida, se não encontrarmos respostas, pelo menos, teremos cérebros que estão preocupados em responder propositivamente as exigências da vida numa sociedade dominada pela complexidade do conhecimento.    


GILSON LIMA.
"O que em mim sente está pensando" (Fernando pessoa)
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