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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Mais um ano. Pensando o futuro presente com Foulcault.


Continuamos mergulhados num cenário onde vivemos cada vez mais de modo dominantemente irreflexivo da desterritorialização da física matéria dos objetos e das relações entre as pessoas e ambiente com novas implicações da espécie viva e dominante nesse planeta.
Emerge cada vez mais formatações societais em rede e desconstituindo a vida-corpo-matéria em tempo real para nódulos abstratos de tempo real em links cibernéticos.
Assim vejo grandes possibilidades de emergir um novo biopoder - contemporâneo - que só poder ser contemporâneo se comprometer com o saber pensar da complexidade.  O que não está acontecendo, pois num mundo são sistemas cibernéticos que são os sujeitos e colonizam as pessoas que acontecem no mundo. Os Nerds são bons com as máquinas e telas, mas péssimos para nos indicar um novo projeto societal. Viraremos apenas pilotos insaciáveis de telas e interações pré-codificadas. Teremos que encontrar novas respostas que operam, concretizam e também possuem implicações propositivas sobre os limites da hegemonia do tecnopoder.


Foto acima: GILSON LIMA.
"O que em mim sente está pensando" (Fernando pessoa)


                                                            MICHEL FOUCAULT

Foi Foucault um  dos primeiros a nos lembrar que da reflexão profunda de alargamento da teoria clássica da soberania e do direito de vida e da morte como um dos atributos fundamentais da contemporaneidade.
Paradoxalmente, com isso, foi o próprio Foucault que nos dá uma dica: temos que enfrentar e forjar uma contrahegemonia ampliada do tecnopoder.
O terreno da biopolítica será o surgimento do biopoder.
Em certo sentido, dizer que o soberano tem direito de vida e de morte significa, no fundo, que ele pode fazer morrer e deixar viver; em todo caso, que a vida e a morte deixam de ter o monopólio de expressão de fenômenos naturais, imediatos e modo original passa a se localizar no campo do poder político.
As sociedades modernas mantiveram e alargaram as características desta concepção instrumental e meramente, incremental, instrumental e do poder sobre a vida. No plano dos mecanismos, das técnicas, das tecnologias de poder a partir, principalmente, dos Séculos XVII e Século XVIII, e elas se tornaram essencialmente centradas no corpo, no corpo individual. 
Disso se deduzia todos os procedimentos pelos quais se assegurava a distribuição espacial dos corpos individuais (sua separação, seu alinhamento, sua colocação em série e em vigilância  e organizações disciplinares...). Segundo Foucault toda esta tecnologia disciplinar do trabalho já se encontrava presente,  sobretudo na Europa, ainda que não expandida, já no final do século XVII e no decorrer do século XVIII.
Eram também técnicas pelas quais nossos corpos se incumbiam e tentavam aumentar a força útil através do exercício, do treinamento, da rotina normatizada da vida, etc. Somam-se igualmente técnicas de racionalização e de economia estrita de um poder que devia se exercer, da maneira menos onerosa possível, mediante todo um sistema de vigilância, de hierarquias, de inspeções, de escriturações, de relatórios,... Toda uma tecnologia da engenharia normativa de tecnologia disciplinar do trabalho e da vida. S
O que Foulcault não poderia vislumbrar é que hoje as tecnologias pós normativas disciplinares nos dirigem para uma religião dogmática e cibernética da codificação irreflexiva e do desenvolvimentismo automático prometendo emergindo a possibilidade do paradoxo do pós-biológico, ou seja, da vida biologicamente pura.
Ao que essas novas técnicas de poder disciplinar se aplica não mais apenas junto a disciplina e que se dirige ao corpo, ao homem-corpo, mas ao homem-cognitivo codificador e não da vida-espécie de longo agora. O ser aqui que deve acontecer enquanto vive; a humanidade-espécie. A política sobre o corpo humano é algo que já não é uma anátomo-política do corpo humano, mas de uma "biopolítica". Uma biopolítica da cibernetificação apenas de partes ativas de um corpo sedentário, mas nómades em links e submerso no universo da cognição cibernética. Uma emergência, ainda que embrionária, de um “biopoder” ocupado e da vida colonizada pelos sistemas cibernéticos.
Para finalizar, a biopolítica, também, terá que se preparar para dar respostas aos problemas complexos que surgirão quando da integração da informação digital com a informação genética, com a programação celular e as novas tecnologias do envelhecimento.
Pensamos que é através do biopoder - do poder da vida como espécie inteligente - e não como indivíduos isolados plugados em tomadas e redes elétricas ou baterias apenas. Teremos que reaprender a aprender uns com os outros e com a vida que se acumula a longo prazo para além do ciberpitagorismo. Foi Pitágoras o primeiro a imaginar os números como deuses e o cálculo como uma religião sagrada, nada mais próximo ao 0 ou 1 do dígito binário que comanda todas as ações em interações com os displays. Números e códigos deuses colonizando pela quantrofenia do uso e do prazer da vida e sobre a vida.
Enfim, com respeito à diversidade teremos que aprender a encontrar respostas mais condizentes aos desafios das conquistas tecnológicas.
Porém, só poderemos estar altura desse desafio se voltarmos a pensar novamente como espécie e não apenas como indivíduos isolados em projeto de longo prazo diante das conquistas que já realizamos.
Se não nos engajarmos na busca de novas respostas de vida a longo prazo, pelo menos, teremos cérebros que estão preocupados em responder pró positivamente as exigências da vida numa sociedade dominada pela complexidade do conhecimento e não meramente da informação irreflexiva.


GILSON LIMA.
"O que em mim sente está pensando" (Fernando pessoa)

Dr. Pesquisador - CNPQ - Porto Alegre. Professor da UNISC. E-mail: gilima@gmail.com