PÁGINAS

domingo, 28 de novembro de 2010

ENCONTRO COM DANIEL DENNET & REINVENTANDO O UNIVERSO DO HUMANO COM A CIÊNCIA EM AÇÃO

Gilson Luiz de Oliveira Lima.
GILSON LIMA.
"O que em mim sente está pensando" (Fernando pessoa).
Sociólogo da Ciência. Porto Alegre. Sócio proprietário da empresa NITAS: inovação e tecnologia. Brasil. Pesquisador do Research Committee Logic & Methodology and at the Research Committee of the Clinical Sociology Association International Sociological (ISA). gilima@gmail.com
E-mail: gilima@gmail.com
FOTO: Da esquerda para direita os filósofos: Dr. João Carlos Brum Torres; Dr. Marco Antônio Azevedo; PhD. Daniel Dennett e Dr. Gilson Lima (Sociólogo das ciências).

Dia 07 de novembro último (2010), tive a oportunidade de encontrar junto com alguns intelectuais de Porto Alegre (Brasil) com um dos mais importantes filósofos da mente vivo: Daniel Dennett. (Vide foto com os Filósofos Marco Antônio Azevedo e João Carlos Brum Torres).


Daniel Clement Dennett (Boston, 28 de março de 1942) é um proeminente filósofo estadunidense. Dennett passou parte da sua infância em Beirute, onde, durante a II Guerra Mundial, seu pai era um agente disfarçado de inteligência no Escritório de Serviços Estratégicos posto como um adido cultural à embaixada americana em Beirute. O jovem Dennett e a família voltaram para Massachusetts em 1947 depois que seu pai morreu em um acidente de avião inexplicável.
Participou da Phillips Exeter Academy e passou um ano na Universidade Wesleyana antes de receber o seu bacharelado em filosofia pela Universidade de Harvard em 1963, quando ele era um estudante. Em 1965, fez seu doutourado em filosofia da Christ Church, Oxford, onde estudou com o filósofo Gilbert Ryle. Dennett é desde abril de 2009 professor universitário e co-director do Centro de Estudos Cognitivos (com Ray Jackendoff) na Tufts University.

Dennett descreve-se como:
"...um autodidata - ou, mais corretamente, o beneficiário de centenas de horas de aulas informais em todas as áreas que me interessam, de alguns dos principais cientistas do mundo." (Dennett. Porto Alegre, 2010).

Ele está principalmente preocupado em proporcionar uma Filosofia da Mente que seja baseada em pesquisas empíricas. Em sua dissertação original, Conteúdo e consciência, ele quebrou o problema de explicar a mente através da necessidade de uma teoria do conteúdo e de uma teoria da consciência. A sua abordagem nesse projeto também permaneceu fiel a esta distinção. Assim como Conteúdo e consciência têm uma estrutura bipartida. Ele viria a recolher vários ensaios sobre o conteúdo em atitude intencional e sintetizar as suas opiniões sobre a consciência em uma teoria unificada em Consciousness explained.
Em Consciousness explained, Dennett tem interesse na capacidade de evolução para explicar algumas das características de produção de conteúdos de consciência já é aparente, e isso se tornou uma parte integrante do seu programa. Ele defende uma teoria conhecida por alguns como darwinismo neural. Ele também apresenta um argumento contra as qualia, ele argumenta que o conceito é tão confuso que não pode ser posto a qualquer uso ou entendido em qualquer forma não-contraditória e, portanto, não constitui uma válida refutação de Fisicalismo. Muito do trabalho de Dennett desde a década de 1990 tem se preocupado em dar as suas idéias anteriores, abordando os mesmos temas a partir de uma perspectiva evolucionária, o que distingue humanos a partir de cérebros de mentes animais (Tipos de Mentes), a forma livre e espontânea vontade é compatível com uma visão naturalista do mundo (Liberdade evolui).
Atualmente é um polemista do ateísmo contrário ao criacionismo e a incidênia religiosa sobre o conhecimento científico. Uma passagem que ilustra bem essa sua posição pode ser ilustrada com um eposódio de sua vida em outubro de 2006, Dennett. Nesse período ele foi hospitalizado devido a uma dissecção aórtica. Após nove horas de uma cirurgia, foi-lhe dada uma nova aorta. Em um ensaio postado no site Edge, Dennett se dá conta, pela primeira vez, dos seus problemas de saúde, e manifesta seu sentimento de gratidão para com os cientistas e médicos, cujo árduo trabalho tornou sua recuperação possível, e sua completa falta de "conversão no leito de morte". Após ter sido informado por amigos e parentes que haviam orado por ele, resistiu ao desejo de perguntar-lhes: "Vocês também sacrificaram uma cabra?". Em 2006 seu livro Breaking the Spell, Dennett tenta dar à crença religiosa o mesmo tratamento, explicando possíveis razões evolutivas para o fenômeno da adesão religiosa.
Para Dennett, quando o papa João Paulo 2º baixou há sua muito citada encíclica, na qual afirma que a evolução é um fato, frisando, entretanto: exceto com respeito à questão da alma humana ele pode ter deixado algumas pessoas satisfeitas, mas é algo simplesmente falso. Seria tão falso como afirmar: os nossos corpos são feitos de material biológico, exceto, é claro, o pâncreas. Mesmo o cérebro altamente complexo não é um tecido mais maravilhoso do que os pulmões ou o fígado. É apenas um tecido.
O argumento em favor do desenho inteligente, para Dennett sempre foi o melhor argumento em favor da existência de Deus. E quando Darwin surge, puxa o tapete sobre o qual esta ideia se sustenta. É preciso que se entenda que o papel de Deus foi diminuindo no decorrer dos anos. Primeiramente tínhamos Deus, como você disse, fazendo Adão e todas as criaturas com as próprias mãos, arrancando a costela de Adão e fazendo Eva a partir dessa costela. A seguir trocamos esse Deus pelo Deus que coloca a evolução em movimento. E depois dizemos que sequer precisamos deste Deus –o decretador da lei, já que se levarmos as ideias da cosmologia a sério, concluímos que existem outros locais, e outras leis, e que a vida surge onde pode surgir. Então, agora não temos mais o Deus criador descobridor de leis, nem o Deus decretador de leis, mas apenas o Deus mestre-de-cerimônias. E quando Deus é o mestre-de-cerimônias e, na verdade, não desempenha mais papel algum no universo, ele ficou diminuído, e não interfere mais de forma alguma. “Na melhor das hipóteses, as religiões funcionam como excelentes organizadores sociais”.
As pesquisas de Dennet se prendem principalmente à filosofia da mente (relacionada à ciência cognitiva) e da biologia. Dennett é ainda um dos mais proeminentes intelectuais ateus da actualidade. Um dos livros mais conhecidos de Dennett é: A Ideia Perigosa de Darwin.

Qual é a ideia perigosa de Darwin para Dennett?

Trata-se do que ele chamou da: ruptura com a noção criacionista do humano por um design inteligente – sobrenatural.

Darwin publicou sua teoria em 1859, na sua obra monumental On the Origin of Species e a completou doze anos mais tarde com The Descent of Man. Darwin baseou sua teoria em duas ideias fundamentais: variações casuais, que foi posteriormente denominada de mutação aleatória, e a seleção natural. No entanto, ainda segundo Dennett mais de 120 milhões de norte-americanos acreditam que Adão foi criado por Deus há dez mil anos, a partir do barro, e que Eva foi feita com a costela do seu companheiro. São os que acreditam na criacionismo e no design inteligente.
Darwin refuta completamente isso com a sua teoria da seleção natural. Ele demonstra que não é assim que as coisas aconteceram. Não só é possível que se obtenham desenhos a partir de coisas não desenhadas, como também pode haver a evolução de desenhistas a partir dessas categorias não desenhadas. No final temos escritores, poetas, artistas, engenheiros e outros projetistas de coisas, outros criadores – que são frutos bastante recentes da árvore da vida. E isso desafia a ideia popular de que a vida possui um sentido.

Vejam imagem de palestra que proferi em 11/11/2010 intitulada: Reinventando o Universo do Humano com a Ciência em Ação. Rio de Janeiro. Hotel Sofitel Rio - Av. Atlântica, em Copacabana no VII Seminário Internacional de Nanotecnologia Sociedade e meio Ambiente – organizado pela Fiocruz.
Segundo Dennet, a ideia de que devemos proteger as ciências sociais e a humanidade do pensamento evolucionário é uma receita para o desastre”. Daniel Dannett é mesmo um entusiasta de Darwin, ele disse que “daria a Darwin a medalha de ouro pela melhor ideia que alguém já teve, pois ela unifica o mundo dos significados, dos objetivos, das metas e da liberdade com o mundo da ciência, com o mundo das ciências físicas”. Quando se fala sobre a grande lacuna entre a ciência social e a ciência natural Dennett diz: “Darwin, ao contrário, mostrou um desenho e sentido podem surgir da falta de sentido algum, a partir da simples matéria bruta”.
Assim, para Dennett, a teoria de Darwin sugere que a vida no planeta Terra foi produzida por um processo algorítmico absolutamente cego, enquanto pensadores da época de Darwin defendiam que só Deus poderia criar todas as coisas concebidas. Através da seleção natural, a concepção e a própria mente de Deus seriam criadas a partir de coisas mais simples. Através da biologia, Darwin teria encontrado uma solução para um problema de filosofia antiga: as origens da concepção.
Segundo Dennett então é por meio da evolução conduz que encontramos o cerne da descoberta mais perturbadora da ciência nas últimas centenas de anos. A ideia de que não é necessário algo de grandioso, especial e inteligente para a criação de uma coisa menor. Dennett chama de teoria da ordem descendente da criação. Ninguém jamais verá uma lança fazendo um fabricador de lanças. Tampouco verá uma ferradura criando um ferreiro. Nem um vaso de cerâmica gerando um ceramista. As coisas ocorrem sempre na ordem inversa, e isto é tão óbvio que simplesmente parece ser uma lei universal. Ele nos diz:

“Para mim é engraçado ver a quantidade de antidarwinistas “automáticos” existente nas humanidades, na filosofia. Foi o reconhecimento disso que me levou a escrever A Perigosa Ideia de Darwin. Com humor quero mostrar a eles o quão reacionários estão sendo.

Dennett vê a evolução por seleção natural como um processo algorítmica. Esta ideia está em conflito com a filosofia do paleontólogo evolucionista Stephen Jay Gould, que preferiu salientar o "pluralismo" de evolução (ou seja, a sua dependência de muitos fatores cruciais, dos quais a seleção natural é apenas uma).
Dennett, do ponto de vista da evolução é visto como sendo fortemente adaptacionista, em consonância com a sua teoria da atitude intencional, e os pontos de vista do biólogo evolucionista Richard Dawkins. Em Darwin's Dangerous Idea, Dennett mostrou-se ainda mais disposto a defender o adaptacionismo de Dawkins, dedicando um capítulo inteiro a uma crítica das idéias de Gould.

As teorias de Dennet tiveram uma influência significativa sobre o trabalho do psicólogo evolucionista Geoffrey Miller. Ele também escreveu sobre e defendeu a noção de memética como uma ferramenta útil filosoficamente, mais recentemente, em seu Cérebros, computadores e Mentes.

Para Dennett, os estados interiores de consciência não existem. Em outras palavras, aquilo que ele chama de "teatro cartesiano", isto é, um local no cérebro onde se processaria a consciência, não existe, pois admitir isto seria concordar com uma noção de intencionalidade intrínseca. Para ele a consciência não se dá em uma área especifica do cérebro, como já dito, mas em uma sequência de inputs e outputs que formam uma cadeia por onde a informação se move.
O problema básico de todo animal é identificar aquilo de que necessitam, evitar tudo o que possa feri-los, e agir dessa forma mais rapidamente do que os elementos antagônicos. Para Dennett, Darwin compreendeu esta lei, e entendeu que este desenvolvimento vinha ocorrendo havia centenas de milhões de anos, produzindo ainda mais mentes androides.
Os humanos descobriram a linguagem – uma aceleração explosiva dos poderes das mentes. Porque a partir disso foi possível aprender não apenas a partir da própria experiência do indivíduo, mas também de forma indireta, com base na experiência de outros. Aprender com pessoas que o indivíduo jamais conheceu. Com ancestrais mortos há muito tempo. E a própria cultura humana se transformou em uma força evolucionária profunda. É isto o que nos confere um horizonte epistemológico que é muitíssimo mais vasto do que o de qualquer outra espécie. Somos a única espécie cujos indivíduos sabem quem são que sabem que evoluíram. As nossas músicas, nossa arte, nossos livros e nossas crenças religiosas são, todos eles, em última instância, um produto dos algoritmos evolucionários. Alguns acham esse fato fascinante. Outros o acham deprimente.
Para Dennett,

“... a melhor evidência que temos da veracidade da teoria de Darwin é aquela que surge a cada dia da bioinformática, do entendimento do código do DNA. Os críticos do darwinismo simplesmente não querem encarar o fato de que moléculas, enzimas e proteínas conduziram ao pensamento. Sim, nós possuímos uma alma, mas ela é composta de vários robôs minúsculos que lutam entre si (neurônios)”.

Comentário => GILSON LIMA

Este fantástico cordão que encerra o código genético que descobrimos é constituído por uma gigantesca biomolécula, conhecida como ácido desoxirribonucleico — o DNA. Se desenrolássemos os fios e os ligássemos em série, eles formariam um frágil cordão, com cerca de 1 metro e meio de comprimento, e apenas 20 trilionésimos de largura!
Segundo estimativas recentes o corpo humano contém cerca de 100 trilhões de células. Na maioria das células existe um núcleo, onde se encontra algo essencial: o genoma humano, uma estrutura contendo o projeto de construção e funcionamento do corpo. O genoma é encontrado no núcleo das células sob a forma de 46 filamentos enrolados em pacotes chamados cromossomos, que incluem também moléculas de proteínas associadas. É como se fosse uma escada flexível formada por duas cordas torcidas, ligadas por degraus muito es-treitos. Cada “corda” é um arranjo linear de unida¬des semelhantes que se repetem, chamadas nucleotídeos, e se compõem de açúcar, fosfato e uma base nitrogenada.
O corpo humano conta também com 20 aminoácidos diferentes, que se unem em diferentes seqüências, para constituir as diferentes proteínas necessárias à sua estrutura e funcionamento. O organismo humano pode sintetizar pelo menos 80 mil diferentes proteínas.

COMENTANDO:
Dennett, como de resto todos os cientistas cognitivistas, dão uma imensa importância ao processo da computabilidade informacional. Não chega, como alguns, a reduzir a vida a noção de informação ou infogene, como alguns deles. SERÁ MESMO QUE A VIDA SE RESTRINGE À INFORMAÇÃO? OU MAIS PRECISAMENTE A INFORMAÇÃO GENÉTICA? Um dos problemas das ciências cognitivas, diferenciadamente da maioria das abordagens dos neurocientistas é que a mente e a vida não é apenas computacional. A informática deu as bases para a consolidação das ciências cognitivas, que tem sua importância, mas também seus limites na compreensão sobre os processos vitais.
Claro que Algumas pessoas que começaram a estudar a inteligência artificial não estavam interessadas em consciência, mas apenas em produzir alguns sistemas cognitivos extremamente competentes. Essa abordagem foi um sucesso. Hoje, podemos realizar com sucesso reconhecimento de voz, no planejamento de reservas de voo, controle de diversos elementos e dispositivos dos nossos automóveis e em nosso cotidiano. Em certo sentido, tudo isso é de algum modo inteligência artificial. Quando as pessoas pensavam em robôs 20 anos ou 30 anos atrás, imaginavam humanoides que seriam mordomos, arrumadeiras ou cozinheiros. Esses robôs não existem, mas existem micro robôs não visíveis fazendo muitos serviços dentro de todo um minúsculo espectro eletromagnético. Então, esse primeiro sonho se realizou, de fato. O outro sonho da robótica humanoide de realmente construir um robô consciente, sempre foi loucamente ambicioso, e uma das coisas que aprendemos foi exatamente a dimensão dessa dificuldade. A robótica humanoide continua, mas acho que nunca criaremos um robô humanoide consciente.
Com o Homo habilis, o “faz-tudo” que começou a fabricar instrumentos de pedra cerca de dois milhões de anos atrás também começou erguer-se uma sensação deles serem mais perfeitos do que os seus artefatos. Assim, a ideia de um criador que é mais perfeito do que as coisas que cria é, acredito eu, uma ideia profundamente intuitiva. É exatamente a esta ideia que os defensores do design inteligente se referem quando perguntam: “Você alguma vez já viu uma construção sem construtores, ou uma pintura sem um pintor?”. Esse raciocínio é algo que captura esta ideia profundamente intuitiva de que jamais se obtém um desenho gratuitamente.
No entanto, sabemos quando a fina película da vida passou a habitar o entorno da Terra, mas a emergência de vida tecnologicamente inteligente no planeta ainda é um grande mistério.
Em 1859, Charles Darwin publicou uma perigosa ideia numa célebre obra A origem das Espécies que, depois de resistências acadêmicas, acabou se constituindo num paradigma da biologia moderna. Reconhecemos com Georges Comte de Buffon que todos somos parte da grande trama comum da vida existente neste planeta, mas ainda estamos à procura do salto singular do homem-macaco.
Enfim, o desdobramento evolutivo da vida ao longo de bilhões de anos constitui uma história empolgante acionada pela criatividade inerente a todos os sistemas vivos. Expressa troca entre recursos e natureza no tempo e ao longo de caminhos distintos de mutações, intercâmbios de genes e simbioses aguçadas pela seleção muito mais natural do que fisicalista.
Mesmo não concordando automaticamente dom Dennett sobre todas as implicações perturbadoras exportas demonstradas da “Origem das Espécies”, mas entendendo e compartilhando com ele da sua importância perturbadora, eu colocaria ainda mais duas questões embaraçosas na perigosa ideia de Darwin além da eliminação do design inteligente:

2. A quebra iluminista da noção central de Homo universalis estatuto dos mesmos direitos. Não somos eternamente humanos – estamos humanos.

3. O tempo, agora faz parte da natureza e da bionatureza. A própria natureza e não somente a cultura tem tempo, história. Distinções artificiais entre matéria e vida perdem sentido.

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VEJAMOS:

Do estatuto iluminista do Homo universalis. Aqui a segunda idéia perigosa de Darwin se insere na quebra da centralidade do Homo universalis do iluminismo. Dennett, também tem explorado essa perturbadora questão, mas de modo mais secundário concentrando suas reflexões sobre o problema da polêmica noção da singularidade da nossa espécie humana. Porém, a singularidade humana depois de Darwin é uma mera compreensão entre o significado das trocas entre a natureza e recursos (o que é típico da constituição de qualquer tipo de espécie biológica) no tempo (história). Segundo Dennett a ideia de Nietzsche de que Deus está morto é também uma conclusão possível a partir do darwinismo. É uma conseqüência muito nítida. Não somos humanos, estamos humanos. Não fomos humanos ontem e, certamente, não seremos humanos no futuro.
Aqui temos também a questão da singularidade do humano.
Alinhando a seqüência do DNA humano com a que pertence a dos Chimpanzés, nosso parente mais próximo vivo surge uma situação interessante: 99% de nossas cópias de DNA são idênticas às deles.

Cientistas da University of California em São Francisco produziram um programa de computador capaz de buscar as seqüências de DNA que mais mudaram desde que humanos e chimpanzés divergiram a partir de seu ancestral comum. FONTE: Scientific American, maio 2009. POLLARD, Katherine.
Encontraram 118 letras de código conhecido como região da aceleração humana (Har1). Verificou-se que o genoma dessa região mudou muito pouco na evolução dos vertebrados, com as seqüências entre chimpanzés e galinhas diferindo em apenas 2 letras. A Har1 em humanos e chimpanzés, entretanto, difere em 18 letras, indicando que a Har 1 conquistou uma importante em humanos. (Fonte: Ibdi. Scientific American, maio 2009).
Das três bilhões de letras formadoras do genoma humano 99% são idênticas entre os humanos e os chimpanzés. As sequências do DNA, que, mais mudaram, entre as partes do genoma, diferindo um chipanzé de um humano constituem uma região biológica denominada de aceleração humana (Har1- na sigla inglesa) e essa região contêm apenas 118 letras. Trata-se de uma região que mudou muito pouco entre todos os vertebrados. Por exemplo, entre os chimpanzés e as galinhas a diferença é apenas de duas letras. Entre os humanos e os chimpanzés são meras 18 letras, um pouco mais de 15%.
Apesar dos dados de diferenciação humana parecerem poucos eles são imensos quando vistos pela ótica celular e realmente muito, muito, imensos pelas possibilidades interativas no âmbito molecular. Um por cento que nos diferencia dos chimpanzés é realmente muita diferença diante das potencialidades de interações bioquímicas de 300 bilhões de células em cada humano a todo instante acontecendo como recursos em ação no mundo e no tempo. Basta ver as imensas diferenças externas dos peludos chimpanzés, o tamanho de seu lóbulo frontal e as consequências capacidades humanas de produzir, assim, pelas suas singularidades, uma civilização tecnologicamente inteligente.


Nossa hipótese (GILSON LIMA): Caminhamos aceleradamente com a manipulação molecular para a saída da era neolítica onde logramos a tarefa de dominar nosso ambiente, para uma nova era simbiótica, quando nossas próximas tarefas serão o domínio de nosso próprio corpo e dos organismos vivos em geral. Estamos realizando o início da PASSAGEM da era do bionte onde deixamos o lugar de transformar o mundo e nos dirigimos os esforços do nosso conhecimento da natureza para mudar agora o nosso próprio ser. A forma homem deixa de ser o monopólio da vida do homem. Do esgotamento do humanismo, do humano como referência universal. Conforme já publiquei em 2005.

A terra girou para nos aproximar. Não gira como nos indicou a “revolução copernicana”, que nos revelou estranhamente, que nosso planeta gira, mas que o homem não. Muitos e muitos cientistas do mundo ocidental centraram-se nessa crença, na qual renascia um potente, ainda que imóvel, e poderoso homem decifrador moderno. (Gilson Lima, Nômades de Pedra, 2005).

Copernicana: Relativo a Nicolau Copérnico, astrônomo polonês Nicolau Copérnico que publicou sua obra maior "Das revoluções dos corpos celestes". Nessa obra, diferentemente da tese adotada pela Igreja Católica durante toda a Idade Média, de que a Terra era o centro do Universo e era fixa, Copérnico, defendeu a teoria de que a Terra se move em torno do Sol e não o contrário. Essa teoria foi mais tarde desenvolvida por Galileu e seu contemporâneo Johannes Kepler culminando na síntese final com a Teoria da Gravitação Universal, formulada pelo físico e matemático inglês Isaac Newton.

Quanto à terceira ideia perigosa de Darwin. A ideia que o tempo, agora faz parte da natureza e da bionatureza. A própria natureza e não somente a cultura tem tempo, história e que distinções artificiais entre matéria e vida perdem sentido.
Nessa nova era, nós estaremos transferindo para as criaturas vivas e para as máquinas ou para matérias inorgânicas parte das suas propriedades singulares é o que chamamos de borramento da fronteira do universo úmido, orgânico, molhado com o universo seco. Da emergência dos borgues híbridos em detrimento dos biontes naturais. Esse processo se acelera desde a metade do século XX. Por exemplo, o marca-passo tem sido utilizado com sucesso na medicina desde 1958. Hoje, a taxa anual é da ordem de 400.000 implantes (Kempf, 1998). Outros dispositivos estão sendo também implantados no corpo humano, ao largo dos últimos anos. Por exemplo, elétrodos para fazer conexão elétrica à espinha dorsal, de modo a estimular órgãos paralisados (utilizado em Larry Flynt, o famoso editor da revista pornográfica Hustler, para recuperar sua virilidade, após uma tentativa de assassinato que o deixou paraplégico) e o incrível implante de olhos artificiais (na verdade, câmeras CCD ligadas a processadores de imagens) para os cegos, projeto desenvolvido pelos oftalmologistas norte-americanos John Wyatt e Joseph Rizzo.
A vida tecnologicamente inteligente está constituindo uma potente beta natureza (seca, inorgânica) e gerando um novo recurso simbiótico com a alfa natureza (úmida e orgânica). São exatamente os recursos da ciência e da tecnologia modelados por uma sociedade do conhecimento que estão nos impelindo para entrar numa nova era da evolução. Estamos iniciando a embarcação de uma nova era simbiótica.
Nossa indicação final é que não vivemos apenas uma nova convergência neurodigital, ou uma nova emergência do pós-humano, ou pós-evolutiva, ao contrário, estamos deixando para trás o humano demasiadamente humano e emergindo novos seres simbióticos modelados por uma aceleração envolta de uma evolução simbiótica, uma evolução geradora de seres bióticos mais duradouros, mais recursivos, ou seja, com novos e potentes recursos e sentidos parabióticos. Esse processo se integra no esforço de sistematização do que denominamos de Teoria Biossocial da Simbiogênese.
Donna Haraway É professora da História da Consciência na Universidade dá Califórnia, em Santa Cruz. A ficção científica contemporânea está cheia de cyborgs -criaturas que são simultaneamente animal e máquina, que vivem em mundos ambiguamente naturais e artificiais. A medicina moderna está deste modo cheia de cyborgs, de acoplamentos entre organismo e máquina.
Ver também: Ver também Um Manifesto cyborgue de Donna Haraway. http://caosmosis.acracia.net/?p=508 “Prefiro ser uma Ciborg a ser uma Deusa”O cyborg é uma criatura em um mundo pós-genérico. Não tem relações com a bisexualidade, nem com a simbiose preedípica (edípica é Relativo a Édipo, herói tebano de uma lenda da Grécia antiga), nem com o trabalho não alienado ou outras seduções próprias da totalidade orgânica, mediante uma apropriação final de todos os poderes das partes em favor de uma unidade maior.
Donna J. Haraway (1991). University of California, Santa Cruz.

O chip de silicone é uma superfície para escrever, está desenhado a uma escala molecular só perturbada pelo ruído atômico, a interferência final das partituras nucleares. A escritura, o poder e a tecnologia são velhos companheiros de viagem nas histórias ocidentais da origem da civilização, mas a miniaturización trocou nossa experiência do mecanismo. A miniaturización se converteu em um pouco relacionado com o poder: o pequeno é mais perigoso que maravilhoso, como acontece com os mísseis. Comparemos os aparelhos de televisão dos anos 50 ou as câmaras fotográficas dos 70 com as telas televisivas que se atam à boneca à maneira de um relógio ou com as manejáveis videocâmaras atuais. Nossas melhores máquinas são feitas de raios de sol, são ligeiras podas, porque não são mais que sinais, ondas eletromagnéticas, uma seção de um espectro, são eminentemente portáteis, móveis - algo que produz uma imensa dor humana em Detroit ou em Singapura.
A gente, é de material opaco, distante de ser tão fluida. Os cyborgs são éter, quinta essência.
Clínica-hospital: Relações intensificadas entre máquina e corpo; renegociaciones das metáforas que canalizam a experiência pessoal do corpo, sobre tudo em relação com a reprodução, as funções do sistema imunitário e os fenômenos de ‘estresse’; intensificações das políticas reprodutivas em resposta às implicações femininas históricas do mundo do controle potencial e sem realizar com relação à reprodução; aparição de enfermidades novas e historicamente específicas; lutas a propósito dos significados e dos meios sanitários em ambientes saturados de produtos e processos de alta tecnologia.
De qualquer modo, depois de Darwin, estranhamente para muitos cientistas reducionistas, a natureza em si tem história, não apenas a cultura humanista tem história, mas a natureza tem temporalidade. Não somos humanos, estamos humanos, somos provisoriamente humanos. Toda espécie é derivação do tempo em troca de recursos com a natureza.
Tentativas de mensurações reducionistas de uma matemática universal, dada como acesso ao universo de uma ordem dada e objetiva (sem valoração subjetiva, sem intencionalidade,...) diante de uma realidade geométrica dotada de uma ordem dada a ser medida se esfumam diante uma natureza. O universo e o mundo natural não é dado mais como organizado capaz de ser capturado por representações mecanicistas e construções reducionistas da realidade em porções cada vez menores ou maiores divididas em incontáveis parcelamentos e funções para reduzir a matéria a poucos atributos não ajudam a entender a complexidade do real.
Estamos nos dirigindo para a emergência de uma nova espécie simbiótica altamente duradoura com partículas minúsculas dedicadas totalmente aos bilhões de esforços jeitosos e cooperativos necessários para nos manter intactos e que nos farão experimentar um estranhamento sobre o que conhecemos como existência ou sobre o que é o real movido pela nossa atual singularidade humano.
Pensamos que diferentemente dos nanoandróides artificias reabilitadores do corpo humano proposto pela ficção científica, o que estamos visualizando em médio prazo é a intervenção sobre a automontagem dos construtores moleculares que já fazem parte de nossa realidade biológica (Self-assembly), ou seja, uma nanobiotecnologia supramolecular. Assim, o fator acelerador da evolução simbiogênica se dará muito mais pela manipulação direta de novas montagens e automontagens nanoestruturadas e de novas e poderosas ferramentas de marcadores quânticos envolvendo ações supramoleculares em parceria com a própria alfa natureza corporal (natureza úmida e orgânica).
Se informação não é conhecimento e se conhecimento não é sinônimo de sabedoria, não é preciso lembrar que essas conquistas geram riscos, desafios éticos e sociais imensos que julgamos não estarmos, ainda, a altura de enfrentá-los.

POTENCIALIDADES E RISCOS

1. Imagina-se espécies sendo programadas para uma maior duração, tendo acesso a programas moleculares que envolve custos de complexidade e duração.

2. Imagine poder comprar programas moleculares visando interferir no sistema orgânico a fim de manter os níveis adultos de descarte do colesterol mesmo depois dos 50 anos.

3. Imagine HOMENS comprarem programas moleculares para continuarem a produzir 7 miligramas diários de testosterona e MULHERES para continuarem a produzir estrógeno com a mesma intensidade aos 50 anos que um ou uma adolescente.

4. Imagine comprar na farmácia inibidores de radicais livres ou superprogramas de defesa de infeções,...

5. Agora imagine que nem todos terão acesso a isso e a humanidade cada vez mais se bifurcará e os humanos naturais serão como chimpanzés, primos dos novos e duradouros simbióticos.

Ao combinação entre os universos nano-micro-molar envolvem complexos sistemas de referências ou diagramas de vida, borramento de fronteiras e de espaço-tempo, cujos próprios referenciais não estão sujeitos ao acesso por disciplinas especialistas diante da complexidade das forças no mundo em ação na natureza física, bioquímica e social para serem devidamente entendidos. Que deixem brotar a teoria e a aplicação do saber inter e transdisciplinar.