terça-feira, 22 de novembro de 2011

CONVERSAÇÕES com Michael Foulcault e Gilles Deleuze



VIVENDO A AGONIA DAS SOCIEDADES DE SOBERANIA E SOCIEDADES DE CONTROLE DISCIPLINAR. 


Gilson Lima – Sociólogo da Ciência – IPA. Pesquisador do Research Committee Logic & Methodology and at the Research Committee of the Clinical Sociology Association International Sociological (ISA). 
E-mail: gilima@gmail.com  
Blog: http://glolima.blogspot.com/



Foucault situou a emergência das sociedades disciplinares do conhecimento nos séculos XVIII e XIX até quando elas atingem seu apogeu no início do século XX. A partir do final da segunda grande guerra vivemos suas efetivas quedas e agonias de hábitos que insistem em esclerostenosenarmos.


Elas viabilizaram organizações físicas e de conhecimento presas em grandes meios de confinamento. As pessoas, entretanto, mesmo antes do apogeu das estruturações complexas em redes não cessavam de passar de um espaço fechado a outro, cada um deles com suas leis: (primeiro a família, a polis, a escola, a corporação,...)  quando passava de uma clausura a outra, de um campo de saber para outro você não estava mais preso no território do domínio funcional. Saía da sua família para a rua (talvez por isso o tão louvado horário comercial), depois da rua, a diversão. O mesmo acontecia quando você não estava mais preso na caserna ou na escola. Depois vinha a fábrica e Deleuze diz: "de vez em quando o hospital e eventualmente a prisão". Esse último talvez o único meio mais reconhecido aos mortais como um efetivo meio de confinamento por excelência. Por isso Foulcaul nos seus primeiros estudos e pesquisa se focou tanto na prisão que serviu pra ele de modelo analógico, mas ele também disse ao ver operários:  “pensei estar vendo condenados". Hoje os robôs operários comprovam isso. Confinavam humanos como máquinas funcionais cognitivas que eram moldadas pelos próprios meios de confinamento (inclusive a escola fabricava máquinas cognitivas para um mundo do trabalho funcional da esteira e do moderno saber mobilizado pela separabilidade e pela fragmentação. Uma tarefa desligada do pensar no criar, de uma mente sem corpo, de um cérebro-mente, um pensar cognitivo  típico do mundo dos códigos,  mas não do mundo e dos estados de mentitude como nós humanos nele acontecemos.


Foucault analisou muito bem o projeto ideal dos meios de confinamen­to, visível especialmente na fábrica: concentrar # distribuir num espaço escasso de conhecimento. Tomado por processos lineares, geradores de eventos sequenciais - um após outro- presos no trilho do tem da história. Decorrente de um tempo sucessivo, seqüencial e serial e por isso cumulativo e direcional.  Um embarque de viagem  seguro e determinado ou pseudo-pré-determinado (metas). Um destino preciso por ser  encadeado numa casualidade controlada. Assim como as linhas e colunas que escrevemosa num texto pagus, um texto linear com letras que se prendem a outras, parágrafos que encadeiam outros, capítulos que se entregam ao próximo e assim sucessivamente. 


Comporíamos assim um quadro fechado numa noção de tempo onde  um passado determina o presente; que determinará o futuro. Uma cadeia causal, tão simplória, mas que durou tanto quanto uma crença religiosa do tipo dessas difíceis de se remoldarem.


Por fim, produzimos uma realidade homogênea ou mais facilmente de pseudocontrolar. Nesse quadro também a ciência torna-se cega tal qual a justiça racional. A diferença é que a ciência torna-se cega mesmo quando potencializa o olho com seus potentes microscópios e macroscópios - o que é um paradoxo. Para os cientistas cegos da imagem e da energia que cria e se auto-recria derivando o que o poeta chama de acontecimento. É muito simplório um mundo que somente podemos capturar os fatos (os mesmos presos nos trilhos do trem da história). 


 Desde Einstein aprendemos a compor o tempo sempre no espaço (espaço-tempo). O tempo sempre é relativo numa singularidade do espaço situacional que observadores e observados  vivenciam.

Uma lástima que a matemática de Einstein até hoje não chegou no ensino básico e médio no Brasil. Tristes trópicos. Algo que me estranha muito é a situação do ensino da matemática no Brasil. Nosso sistema Capes (pós-graduações) produziu e conta com os mais importantes e reconhecidos matemáticos do mundo, mas a matemática que se ensina nas escolas (mesmo nas ditas privadas de excelência) podem ser consideradas " horrorosas" , com cobertura de pavor do pior tipo, um ensino massacrante, desconectado do universo dos estudantes e incentivador de decorebas de fórmulas frias que ninguém vê sentido algum.
O projeto científico de Descartes, Newton,  ... acabou por reproduzir um conhecimento humano separado da matemática e uma física racional separada do humano não racional.  Para a maioria dos estudantes das humanidades nada restava a não ser fugir  da matemática. Talvez por isso encontro tantos sociólogos sem vocação de um saber expandido. Podem falar o que quiser do Fernando Henrique Cardoso, mas ele sempre levou a matemática com respeito assim como  seu mestre Florestan Fernandes que também  sempre mostrou em suas pesquisas e publicações uma vocação matemática num tempero social em excesso.
Voltemos a agonia das  sociedades de soberania consolidadas na Europa - principalmente - depois da revolução francesa e da emergência do saber por disciplinas com seus territórios funcionais de competência confinadas.


Segundo Foucault os diferentes modos de controle formam va­riações inseparáveis de  um sistema geométrico cuja linguagem é numérica (o que não quer dizer ne­cessariamente binária). Os confinamentos são moldes, distin­tos moldagens, mas os controles são uma modulação, como uma moldagem auto-deformante que muda a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudas­sem de um ponto a outro. Se os jogos de televisão mais idiotas têm tanto sucesso é porque exprimem adequadamente essa situação.
Segundo Deleuze as sociedades disciplinares têm dois polos: a assinatura que indica o indivíduo (um número em si- que pode ser um nome em si, uma unidade de sie o número de matrícula institucional que indica sua posição para além de si.
 É que as dis­ciplinas modulam. Uma interessante incompatibilidade entre os dois polos e é por isso que eles se anulam totalmente o outro de si criando um poder massificante além de si - confinado num outro sem si.


Não há necessidade de ficção científica para se conceber um mecanismo de controle moldado a cada instante. Félix Guattani ima­ginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças a um cartão eletrônico que abriria as barreiras; mas o cartão poderia também ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora; o que conta não é a barreira, mas o computador que detecta a posição de cada um, -lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal.
O estudo sócio-técnico dos mecanismos de controle, apre­endidos em sua aurora, deveria ser categorial e descrever o que já está em vias de ser implantado no lugar dos meios de confinamento disciplinares, cuja crise todo mundo anuncia. 


Finalizando, muitos jovens pedem estranhamente para serem “motivados” na escola do confinamento e solicitam novas certificações para novos confinamentos. Caberia quem sabe a eles descobrir aonde estão sendo levados a servir, assim como seus antecessores descobriram, não sem dor, a finalidade das disciplinas. Como disse Deleuze: "os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira".

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