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terça-feira, 1 de março de 2011

Cérebro não precisa da visão para 'ler' textos, diz pesquisa

Notícias e Comentários
Gilson Lima



Estudo com deficientes visuais lendo em Braille mostra que mesmas áreas do cérebro da leitura visual são ativadas






SÃO PAULO - A porção do cérebro responsável pela leitura visual não precisa da visão. Foi o que determinou um novo estudo analisando imagens do cérebro de cegos lendo em Braille. A descoberta desafia a noção de que o cérebro é dividido em regiões especializadas no processamento da informação vinda de sentidos diferentes, segundo os pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém e da França.
Karl-Heinz Wellmann/Divulgação

Livro escrito em Braille
 

O cérebro não é uma máquina sensorial, embora muitas vezes se pareça com uma; ele é uma máquina de realização de tarefas, afirmaram os pesquisadores responsáveis pela pesquisa. Uma área em particular é responsável por uma função única, nesse caso, pela leitura, independentemente do sentido envolvido na modalidade.
Diferentemente de outras tarefas realizadas pelo cérebro, a leitura é uma invenção recente, de cerca de 5.400 anos de idade - o Braille tem apenas 200 anos - não havendo tempo suficiente para que o cérebro tenha evoluído um módulo específico dedicado a essa tarefa.
No estudo, a equipe utilizou ressonâncias magnéticas para observar o cérebro de deficientes visuais de nascença lendo palavras ou sinais sem sentido em Braille. Quando liam palavras reais, a área do cérebro acionada no processo de leitura era as mesma acionada no processo de leitura visual.

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Meu comentário:
Recentemente escrevi um artigo (ainda não publicaso) com resultados de pesquisa que realizei envolvendo o tema da mente, o cérebro, o olho e a leitura.

Nesse artigo reafirmamos a concordância com muitas descobertas atuais das ciências da mente de que o cérebro não foi naturalmente projetado para ler e indicamos alguns aspectos filogenéticos e ontogenético do sistema nervoso central e dos estados de mentitude para a linguagem e a fala. Nosso sistema visual demonstra ao mesmo tempo a importância e os limites do olho para a leitura.



Nesse artigo que espero seja publicado ainda esse ano em uma importante revista da área de educação colocamos um sub-título específico que apresenta didaticamente o processo do sistema visual intitulado: O Olho em si não enxerga.
Nós humanos atualmente nascemos com a dádiva de enxergarmos o mundo colorido em que nele acontecemos esquecemos o que poderíamos ser e aprender sobre nós e esse mesmo mundo sem nossos olhos. No entanto, preparem-se não enxergarmos com o olho. O olho não enxerga nada.
Assim, começamos ao estudar o sistema nervoso central descobrir que no processo de ler significa também não ler e o cérebro não precisa ver tudo que está impresso no papel. Isso é muito importante e de algum modo muda a idéia que alguns reduzirem a performance da leitura totalmente focada no sistema de microrrelações voltada ao foco visual. Para ler um texto impresso precisamos não ler o que não está impresso numa página. Complicado?
Ver realmente é uma dádiva. Entendemos claramente o porque da valorização do olho, pela ciência nos processo de aprendizagem de conhecimento tem uma base de fundamento na idéia que “aparentemente” está correta, de que de todas as ressonâncias sensórias humanas, o olhar e o ver o mundo colorido e em três dimensões é uma das maiores dádivas que a evolução da vida nos legou. Também, nos diz a neurologia, de que de todos os “órgãos” dos sentidos, o olho é o que detém o mais complexo mecanismo operado por nossa mente. Só para se ter uma idéia os estudos de ressonância magnética encefálica, contabilizam mais de cem milhões de fotorreceptores conectados ao olho, contra 3.500 (três mil e quinhentas) células ciliadas internas do ouvido. No entanto, basta um simples fundo musical quando estamos assistindo a uma cena de um filme, que numa simbiose intensa, passamos também a “ver” música e a “ouvir” imagens. (LIMA, Gilson. Nômades de Pedra, Porto Alegre: Escritos, 2005: 316).
Apesar de não vermos tão longe quando um condor capaz de enxergar um pequeno peixe dentro d’água a quase 1.000 metros de altura, nosso sistema visual é muito complexo e a visão é um ponto de partida fundamental para a escrita e a leitura.
Ver não é olhar. A valorização do olho, pela ciência moderna tão enfatizada nos processo de aprendizagem de conhecimento tem uma base de fundamento na idéia que “aparentemente” está correta, de que de todas as ressonâncias sensórias humanas, o olhar e o ver o mundo colorido e em três dimensões é uma das maiores dádivas que a evolução da vida nos legou.
Desde os antigos gregos a visão somente era possível graças a um "fogo interno", emanado dos nossos olhos, iluminando os objetos do mundo. Os gregos seguiam a chamada doutrina jônica, segundo a qual "semelhante é percebido por semelhante. A percepção do som, que é ar em movimento, ocorreria graças à presença de ar nos ouvidos; e, como escreveu Aristóteles (384-322 a.C.).
Ao dizer que vemos o mundo como o vemos, significa dizer também que o mundo que vemos não é o mundo como ele efetivamente é. O mundo como o vemos é um mundo que praticamente reconstruído simbolicamente e como poucos seres vivos o vê.
É importante aqui apenas considerar que para entender o que vemos precisamos primeiro de ver. Para isso precisamos dos olhos. O olho nos permite ver, mas não entender o que enxergamos. Enxergar é um simbiótico estado de mentitude muito complexo. Nem sequer as cores que vemos existem em si mesmo, são produtos da simbiose de estados de mentitude quando acontecemos no mundo em dependência de nossos bioprocessos capazes de transmutarem sinais de fótons em determinadas cores. O mesmo vale para o som. O som lá fora de nossos processos de mentitude são penas ondas que vibram sem ruídos.
Ler exige concentração focal. Os seres humanos e vários outros animais possuem dois olhos apontados para a mesma direção e duas imagens de objetos são enviadas ao cérebro ao mesmo tempo. Se não focarmos e concentrarmos de modo adequado um livro, veremos mais de uma letra o que dificultará a leitura. Nosso raio de ação para não ser bifocal deve ser previamente considerado na leitura para permitir ao cérebro identificar a percepção de um único objeto e também sua distância e profundidade.
Não vamos nos ater nos aspectos mais complexos da transformação do sinal em símbolos socialmente compartilhados e muito menos na complexidade dos processos que envolvem a significação textual. Para nossos fins, apenas devemos ter ciência de que ler é um caso especial de percepção visual. E muito marcado pela aprendizagem e a cultura, mas, ao mesmo tempo, e tão elementar que nos, quando olhamos uma palavra, temos mesmo de ler. Dito de outra forma: não podemos simplesmente ver uma palavra e não a ler! Ler é um ato de imaginação visual.
A questão mais importante para muitos de nós educadores é repensarmos a teoria explícita ou implícita dos sentidos humanos que herdamos de antigos gregos (Aristóteles), ou seja, a idéia da existência em si de uma realidade mateiral dada que é capturada pelos modestos cinco sentidos humanos. Isso tem implicações profundas em nossas práticas de aprendizagens.


Gilson Lima
Sociólogo da Ciência.
Pesquisador do Research Committee Logic & Methodology and at the Research Committee of the Clinical Sociology Association International Sociological (ISA).


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