Gilson Lima(1) / Seu Kowalky
Olhe para uma árvore, qualquer árvore, aquele jatobá gigante na beira da estrada, com os galhos abertos como braços de um gigante, cheio de folhas. A palmeira ali na esquina, com o tronco balançando suavemente na brisa. Ou o pinheiro centenário na montanha, tão grosso que mal dá pra abraçar, com a copa lá no alto, quase sumindo no céu. Agora pergunte de onde feito toda essa massa? De onde veio tudo isso?
A árvore é luz conservada.
A simbiótica sabe que as árvores, que são vidas recentes desse nosso planeta vivo, não crescem com seus troncos de madeiras, seus galhos, suas folhas da terra. As árvores que estão nas florestas, nos pátios das casas, até mesmo plantinha de seu vaso não crescem da terra. De onde vem tudo isso? O tronco com meio metro de diâmetro, os galhos que se estendem por metros e metros, raízes que se enterram fundo, mais fundo do que você jamais cavou.
Tudo isso pesa toneladas, tipo, toneladas mesmo. Um jatobá grande pode pesar tanto quanto um caminhão carregado, uma sequoia como um barco pequeno. Então, de onde veio toda essa massa? Você provavelmente pensa, da terra, claro.
Agora olhe para uma árvore, qualquer árvore, aquele jatobá gigante na beira da estrada, com os galhos abertos como braços de um gigante, cheio de folhas. A palmeira ali na esquina, com o tronco balançando suavemente na brisa. Ou o pinheiro centenário na montanha, tão grosso que mal dá pra abraçar, com a copa lá no alto, quase sumindo no céu.
Certamente as árvores crescem da terra. Certamente as raízes entram no solo, puxam tudo que precisam, e a árvore se constrói com esses nutrientes. Parece tão óbvio, tão intuitivamente certo, que nem vale a pena discutir.
Toda criança sabe, as árvores crescem da terra. Mas e se eu te disser que isso não é verdade? Que uma das coisas mais simples, mais básicas, que você sempre aceitou como verdade, é na verdade uma baita ilusão.
Imagine apenas uma vez olhar para uma árvore e saber que essa árvore é feita de ar. Isso está mais do que certo. No fim dessa história, você nunca mais vai olhar para uma árvore do mesmo jeito.
Porque a história uma história sobre a fonte criativa invisível do universo. Sobre como a luz de uma estrela, a 150 milhões de quilômetros de você, está se transformando em madeira aí na sua janela.
Vamos começar com um experimento. Não um experimento imaginário. Um experimento de verdade.
Quase 400 anos atrás, um médico e alquimista flamengo, chamado Jan Baptista van Helmont, resolveu testar aquilo que todo mundo acreditava. A sabedoria popular dizia, as árvores comem terra, as raízes absorvem o solo e o tronco se constrói a partir desse solo. Van Helmont não era de acreditar em tudo o que ouvia.
Ele pegou um vaso grande de barro, colocou exatamente 90 quilos de terra bem seca, plantou um pequeno salgueiro, pesando só 2 quilos, e começou a regar, só com água, nada mais. Sem adubo, sem nada. Cobriu o vaso com uma tampa, para não cair poeira, nem sujeira, e esperou.
Cinco anos. Cinco longos anos regando aquela árvore e vendo ela crescer. Quando ele finalmente tirou o salgueiro do vaso e colocou na balança, a árvore pesava 75 quilos.
73 quilos que apareceram do nada. E a terra? Van Helmont secou tudo com cuidado e pesou de novo. A terra tinha perdido só 60 gramas.
60 gramas em 90 quilos. Isso não é nem uma margem de erro. É nada.
Van Helmont ficou chocado. Se a massa não veio da terra, de onde veio? Ele achou que a resposta era a água. A árvore se construiu com água.
Uma resposta elegante. Uma resposta lógica. E quase totalmente errada.
É aí que a história de verdade começa. Porque Van Helmont fez a pergunta certa, mas não tinha as ferramentas para encontrar a resposta certa. Essa ferramenta só ia aparecer séculos depois.
E essa ferramenta não é um telescópio, não é um microscópio. É entender o que você respira. O ar.
A gente vive no fundo de um oceano de gás. Um oceano invisível, imperceptível, que empurra cada centímetro quadrado de seu corpo com a força de um quilo. Você não percebe.
Assim como o peixe não percebe a água. Cada vez que você respira, você puxa para os seus pulmões uma mistura de moléculas. Mais ou menos 78% dessa mistura é nitrogênio.
21% é oxigênio. E uma parte minúscula, quase fantasmagórica, só 0,04% é gás carbônico. 0,04%.
A cada 2.500 moléculas de ar que entram nos seus pulmões, só tem uma molécula de gás carbônico. Uma. É tão pouco que você nem sente.
Não sente o gosto, não vê, não percebe. Parece que nem existe. Mas é esse gás invisível, quase fantasma, que é a principal matéria-prima de cada árvore, de cada arbusto, de cada grama no planeta.
Gás carbônico. Dois átomos de oxigênio, um átomo de carbono. A molécula mais simples, voando ao seu redor agora, batendo no seu rosto, entrando nos seus pulmões e saindo de novo.
E a árvore faz uma coisa inacreditável. Ela pega essa molécula. Ela literalmente pesca ela do ar.
Através de pequenos buracos na parte de baixo de cada folha, que se chamam os estômatos. Os estômatos são estruturas microscópicas presentes na epiderme das plantas, especialmente nas folhas. Eles funcionam como "válvulas" que controlam as trocas gasosas (absorção de gás carbônico para a fotossíntese e liberação de oxigênio) e a transpiração (perda de água em forma de vapor). Essas bocas microscópicas, invisíveis a olho nu, que abrem e fecham dependendo da luz e da umidade. A árvore puxa o ar para dentro dela. E desse ar ela pega o gás carbônico.
Não o oxigênio. Não o nitrogênio. Justamente o gás carbono, aquele componente quase inexistente que representa aproximadamente 0,04% (ou 420 ppm - partes por milhão) do total de gases na atmosfera terrestre.
A árvore é basicamente um filtro. Um filtro gigante, paciente, silencioso, que dia após dia, hora após hora, tira o carbono do ar e guarda dentro das suas células. Como um joalheiro, que de toneladas de areia de rio, tira pequenas pepitas de ouro.
Mas pegar a molécula é uma coisa. Transformar gás em madeira sólida é outra completamente diferente. Como que o ar, que você não consegue ver nem tocar, vira madeira, que você bate com um punho e sente a firmeza.
É aí que a gente chega no verdadeiro milagre. E esse milagre se chama fotossíntese. Você já ouviu essa palavra mil vezes.
Na escola, nos livros, nos documentários. Os professores desenhavam flechinhas no quadro. E você decorava a fórmula para a prova.
Mas eu quero que você esqueça tudo que você acha que sabe sobre fotossíntese. Porque fotossíntese não é um esquema chato do livro didático. É uma das coisas mais incríveis, mais elegantes, que acontecem no universo.
E está acontecendo agora, nesse segundo, em cada folha verde, que você consegue ver da janela. Imagine um fóton, uma partícula de luz. Um pequeno pacote de energia pura, que não tem massa, mas tem impulso e direção.
Oito minutos atrás, esse fóton, nasceu na superfície do Sol, onde a temperatura passa dos 5.500 graus Celsius. Ele escapou do plasma incandescente e voou pelo vácuo do espaço, a 300 mil quilômetros por segundo. Passou por Mercúrio, passou por Vênus, atravessou 150 milhões de quilômetros de vazio absoluto.
E aí, depois de percorrer essa distância inimaginável, ele bate numa folha. Numa folhinha fina, leve, verde, no galho de uma árvore no seu quintal. E nesse exato momento da colisão, a mágica começa.
Dentro das células da folha, tem moléculas especiais, a clorofila. É ela que faz a folha ser verde. Mas presta atenção, a cor verde é só um efeito colateral, um reflexo.
A folha é verde porque a clorofila absorve a luz vermelha e a luz azul, e reflete a verde de volta para os seus olhos. O trabalho de verdade da clorofila é ser uma armadilha para fótons. Quando um fóton bate numa molécula de clorofila, ele transfere a energia dele para ela.
Um elétron dentro dessa molécula fica excitado, pula para um nível de energia mais alto, e começa uma sequência de reações que, no fim das contas, faz uma coisa impressionante. Quebra uma molécula de água. Quebra mesmo, separa as partes.
A água, que as raízes puxaram com paciência do solo, é partida. O hidrogênio se separa do oxigênio. E esse oxigênio, um subproduto inútil para a árvore, é jogado de volta na atmosfera pelos mesmos estômatos.
Para um segundo e pensa nisso. O oxigênio que você está respirando agora é lixo, resto de produção, subproduto daquilo que a árvore está tentando fazer de verdade. A árvore não está produzindo oxigênio para você.
Ela está se livrando dele, porque ela precisa do hidrogênio. É como se uma fábrica gigante jogasse diamantes no lixo, porque o que interessa mesmo é a embalagem de papelão. A gente respira o lixo das árvores.
E depende desse lixo a cada segundo da nossa vida. O hidrogênio, que veio da água quebrada, se junta com o gás carbônico, que foi pescado do ar. E nessa reação, alimentada pela energia do fóton, que viajou oito minutos de uma estrela através do vazio do espaço, se cria uma molécula de glicose, açúcar.
Açúcar simples. Seis átomos de carbono, doze átomos de hidrogênio, seis átomos de oxigênio. E desse açúcar, a árvore constrói absolutamente tudo.
A celulose, a estrutura rígida das paredes das células. A lignina, a substância que faz a madeira ser dura e resistente. A casca, que protege o tronco.
Os galhos, que se esticam em direção à luz. As raízes, que procuram água na escuridão. Tudo, absolutamente tudo que você vê quando olha para uma árvore, foi construído a partir do açúcar, que foi criado do ar e da água, com a ajuda da luz de uma estrela distante.
Richard Feynman entendia isso muito bem. Uma vez ele explicou com a genial simplicidade, que era a marca dele. Quando você queima uma árvore na lareira, e vê as chamas, ele disse, você está vendo o processo ao contrário. O fogo é a liberação daquela mesma luz do sol que foi capturada pela folha, meses ou anos atrás.
Veja o estalo da lenha queimando, é o som das ligações químicas se rompendo. Ligações que guardaram a energia dos fótons durante todo esse tempo. O calor que você sente, sentado perto da lareira numa noite de inverno, estendendo as mãos geladas em direção ao fogo, é o calor do sol. Um calor que estava preso dentro da madeira, esperando pacientemente a hora certa. Quando você olha para as chamas na lareira, você está literalmente vendo o verão passado, saindo da árvore. A árvore é luz conservada.
Agora, vamos ver a escala disso. Uma árvore média, num clima temperado, ganha mais ou menos, uma tonelada de massa seca durante a vida.
Mais ou menos metade dessa massa é carbono puro. Carbono, que um dia foi um gás invisível, voando no ar como parte de moléculas de gás carbônico. Para juntar todo esse carbono, a árvore teve que processar milhares e milhares de metros cúbicos de ar. É como se ela engolisse, um prédio inteiro, cheio de ar do chão até o teto. E de cada 2.500 moléculas, escolher-se cuidadosamente uma. Uma folha numa árvore, faz milhões de reações fotossintéticas, num dia ensolarado de verão.
Milhões. E cada uma delas, começa com a chegada de um único fóton, que viajou de uma estrela. A escala desse processo é impressionante.
E tudo acontece em silêncio. Num silêncio absoluto. Sem nenhum som. Sem nenhum mecanismo visível. Só a folha, a luz e o ar. A maior fábrica da Terra, não faz barulho nenhum.
Então se a árvore se constrói do ar, isso significa uma coisa surpreendente sobre o mundo ao seu redor. A árvore, é uma construção da atmosfera. A atmosfera sólida. Quando você bate numa mesa de madeira, e sente a firmeza dela sobre seus dedos, você está batendo no ar que se tornou sólido. Quando você pega uma cadeira de madeira, você está levantando um gás, que ganhou forma.
Cada casa de madeira, é uma casa construída de ar. Cada livro de papel, é ar amassado e prensado em páginas finas. Cada lápis, é um pequeno cilindro de atmosfera antiga.
A gente vive em casas de ar. Escreve no ar. Lê o ar. Senta no ar. E quase nunca pensa nisso. Mas aqui aparece um paradoxo que faria qualquer engenheiro se arrepiar.
Mas tem um paradoxo ainda mais intrigante, se o gás carbônico na atmosfera, é só 4 centésimos por cento, como que as árvores conseguem juntar tanto? É como tentar encher uma piscina, juntando uma gota de orvalho de cada folha de grama, num campo infinito. A resposta está em duas coisas. Paciência, e escala. Uma árvore grande pode ter 200 mil folhas. A área total dessas folhas, pode ser maior que vários campos de tênis. Cada folha é coberta por milhares de estômatos.
E cada um deles, abre e fecha. Deixando o ar entrar, e o vapor d'água sair. A árvore não é um objeto passivo, parado na beira da estrada.
É uma máquina. Uma máquina silenciosa, elegante, e incrivelmente eficiente, que funciona com a luz das estrelas. E ela trabalha todo dia, sem folga, sem quebrar.
Milhões de anos seguidos. Mas a simbiótica não para na mecânica. É preciso ir além. É preciso perguntar, o que isso significa? Não como isso funciona, mas o que isso diz sobre o mundo que a gente vive? E a resposta será sempre a mesma.
O mundo é incrivelmente bonito, se você souber para onde olhar. Quando um poeta olha para uma flor, ele vê a beleza da forma e da cor. E essa é uma beleza verdadeira.
Mas quando um cientista olha para a mesma flor, ele vê toda aquela beleza da forma, mas também a beleza do processo. Ele vê como os átomos de carbono, que bilhões de anos atrás, foram criados no núcleo incandescente, de uma estrela moribunda, numa temperatura de milhões de graus, agora estão cuidadosamente organizados nas pétalas. Ele vê como um fóton, que nasceu num inferno termonuclear, que voou pelo vazio do espaço, foi pego por uma molécula verde e transformado em açúcar, que construiu essa pétala.
O cientista, não vê menos beleza que o poeta. Ele vê mais. Muito mais.
O conhecimento não mata a poesia. O conhecimento, cria uma poesia nova, mais profunda. Mas vamos voltar para a árvore.
Porque tem mais uma camada da história, que a gente não tocou ainda. A terra. Lembra que Van Helmond descobriu que a terra tinha perdido só 60 gramas em 5 anos? Mas ela perdeu alguma coisa.
E essa alguma coisa, é fundamental. Do solo, a árvore tira os minerais. Nitrogênio, fósforo, potássio, magnésio, ferro, e dezenas de outros elementos em quantidades microscópicas.
Sem o magnésio, por exemplo, não dá para construir a molécula de clorofila. Um átomo de magnésio fica no centro dessa molécula, como uma pedra preciosa numa joia. E sem ele, a armadilha para a luz não funciona.
Sem o ferro, as enzimas param de funcionar. Sem o fósforo, não dá para construir o DNA. O solo não é a fonte da massa da árvore, mas é a farmácia dela.
A oficina de ferramentas. Sem essas pequenas adições, toda a máquina grandiosa da fotossíntese simplesmente não liga. Então, Farman estava certo.
Mas com uma pequena honesta ressalva. A árvore é quase toda feita de ar e água. Quase.
Aquelas 60 gramas da terra são como uma pitada de sal num prato elaborado. Quase não tem. Mas sem elas, tudo perde o sentido.
Tem mais uma proeza da engenharia que não dá para deixar de falar. A água. A gente sabe que a árvore quebra as moléculas de água para pegar o hidrogênio.
Mas para levar essa água das raízes até as folhas, a árvore faz uma coisa que nenhum engenheiro conseguiria. Uma árvore alta, a água sobe 30, 50 e, no caso das sequoias, 100 metros para cima. Contra a gravidade.
Sem nenhuma bomba, sem motor, sem eletricidade, sem nenhuma peça mecânica se movendo. Como isso é possível? Três forças trabalham juntas num acordo silencioso. A primeira é o efeito capilar.
A água sobe pelos tubos finíssimos do xilema[2] por causa da tensão superficial. A segunda é a pressão osmótica, criada pelas raízes. E a terceira, a mais poderosa, é a transpiração.
Quando a água evapora da superfície da folha pelos estômatos, ela cria uma pressão negativa que puxa toda a coluna de água de baixo, como uma corrente invisível. Molécula por molécula, ligadas umas às outras por ligações de hidrogênio. Um fio contínuo de água líquida, que vai da ponta da raiz até a folha mais alta.
E esse fio é tão frágil que se entrar uma bolha de ar, ele se rompe, como uma corda esticada, e o galho pode morrer. A árvore caminha todo dia na beira do abismo, arriscando a vida para levar a água até a luz. Agora, vamos juntar tudo.
A árvore é o ponto de encontro de três mundos. O mundo da luz, o mundo do ar e o mundo da água. Os fótons vêm de uma estrela, depois de voar oito minutos pelo espaço.
O gás carbônico vem da atmosfera, onde quase não existe. A água vem do solo, puxada por uma corrente invisível por dezenas de metros. E dentro da folha verde, nesse pequeno laboratório do tamanho de uma unha, esses três fluxos se encontram e criam algo totalmente novo.
Açúcar, matéria, vida. E o oxigênio, liberado das moléculas de água quebradas, voa para o céu, para que outra pessoa possa respirar. Não é só química, é arquitetura.
Arquitetura universal, funcionando ao mesmo tempo em escalas que vão do subatômico ao planetário. E o que é impressionante, esse processo não foi inventado pelas árvores. As árvores são visitantes relativamente recentes nesse planeta.
A fotossíntese foi inventada por bactérias. Pequenas cianobactérias unicelulares, que surgiram há mais de 2 bilhões e meio de anos, aprenderam a pegar a luz e quebrar a água. E elas faziam isso tão bem, tão incansavelmente, que literalmente envenenaram o planeta.
O oxigênio, que elas jogavam fora como lixo, era um veneno mortal para a grande maioria dos organismos da época, acostumados a viver sem oxigênio. Aconteceu a maior catástrofe ecológica da história da Terra, chamada de catástrofe do oxigênio. Ecossistemas inteiros foram destruídos.
Espécies que prosperaram por bilhões de anos, desapareceram para sempre. Mas aqueles que sobreviveram fizeram uma coisa incrível. Eles aprenderam a usar o veneno.
Aprenderam a tirar energia do oxigênio. Aprenderam a respirar. E desses sobreviventes, depois de bilhões de anos de evolução lenta e paciente, surgimos nós.
Nós somos descendentes daqueles que sobreviveram ao envenenamento pelo subproduto da fotossíntese. Cada vez que você respira, você está ouvindo o eco de uma catástrofe antiga. Uma adaptação a um veneno que um dia destruiu o mundo.
Quando você está em frente a uma árvore e respira, está acontecendo uma troca que já dura bilhões de anos. Você solta o gás carbônico, a árvore pega ele e se constrói. A árvore solta o oxigênio, você respira ele e queima nas suas células para viver.
Isso não é uma metáfora poética. É uma troca literal, física, atômica. Os átomos de carbono que agora fazem parte do seu corpo vão para a árvore.
Os átomos de oxigênio que estavam na árvore vão para o seu sangue. Você e a árvore trocam pedaços um do outro a cada inspiração e a cada expiração. A fronteira entre você e a árvore é uma ilusão, criada pela escala da nossa visão.
Feynman já dizia que se você pudesse ver os átomos, você não conseguiria traçar uma linha clara entre você e o mundo ao seu redor.
Então olha a consequência simbiótica disso. Os átomos que estão na sua mão agora podem estar numa folha daqui a um mês. Os átomos que estão no tronco de uma árvore podem estar no seu coração daqui a um ano. A gente não está separado do mundo. A gente é o fluxo dele, o movimento, a dança.
A árvore é só outra forma desse mesmo fluxo. Outro padrão na mesma dança infinita da matéria. E aí a gente volta para o começo.
Olhe para a árvore de novo e agora que ela não cresceu do solo. Ela cresceu do ar, da luz, da água, de átomos que foram criados nas fornalhas termonucleares de estrelas que explodiram muito antes do nosso sol existir.
Cada anel no tronco é um ano de luz solar capturada. Cada galho é gás carbônico solidificado. Cada folha é uma pequena fábrica trabalhando com fótons que oito minutos atrás faziam parte de uma estrela.
A árvore não é uma planta no sentido comum da palavra. A árvore é um processo. Um processo lento, paciente, contínuo, de transformar a luz das estrelas em matéria.
E quando no outono as folhas caem no chão e começam a se decompor, o carbono volta para a atmosfera. O ciclo se completa. Os átomos começam a jornada de novo.
O mesmo carbono que um dia fez parte de um dinossauro pode ter estado num carvalho medieval, depois virar parte do ar que Newton respirou, depois parar numa folha de uma árvore e daqui a cem anos fazer parte de algo que a gente nem consegue imaginar. A matéria não desaparece. Ela não é criada do nada.
Ela dança. Uma dança infinita, lenta, majestosa, em que as árvores são algumas das dançarinas mais graciosas, mais pacientes. A simbiótica entende que vida como essa vibração em dança cósmica. Em cada árvore, em cada folha, em cada fóton que vinha do sol.
Não através de livros didáticos. Mas através de um espanto simples, honesto, infantil, sobre como o mundo funciona. A árvore não cresce do chão.
A árvore cresce do ar e da luz. E isso não diminui a beleza dela. Isso a torna mil vezes mais linda.
=============================================
[1] Gilson Lima/Seu Kowalsky. Cientista, músico, inventor de várias tecnologias, softwares e protocolos clínicos, escritor.
Desde o início dos anos 90, quando concluiu sua tese de mestrado, envolveu em sociobiologia que permitiu a elaboração da sua Teoria Social da Simbiogênese, tendo por referência de base as pesquisas em micro biologia celular de Lynn Margulis.
Ao mesmo tempo em que foi criando e processando a sua teoria simbiótica, realizou múltiplas pesquisas de bancadas com invenções de produtos e processos.
Iniciou suas pesquisas na complexidade em metodologias informacionais e criticando a abordagem cognitivista computacional do cérebro e mente, foi migrando para coordenar por quase duas décadas pesquisas clínicas de pacientes com lesões neurais severas envolvendo interfaces simbióticas entre micro ritmos corporais e displays (terapia magnética).
Na perspectiva da Teoria Social da Simbiogênese, a sociedade é vista como um sistema complexo e dinâmico de interdependências, onde os “indivíduos” e grupos estão constantemente se influenciando e transformando uns aos outros.
A Teoria Social da Simbiogênese propõe ainda uma visão mais integradora das diversas ciências sociais, incluindo a sociologia, a antropologia, a psicologia e a biologia,... Segundo Lima, cada uma das diferentes disciplinas tem uma perspectiva única e importante para compreender as relações sociais, mas é necessário integrar essas perspectivas para ter uma compreensão mais complexta do paradigma e mais abrangente da sociedade.
A teoria da simbiogênese sugere que a evolução dos seres vivos não ocorre apenas por meio da seleção natural, mas também pela integração de novos elementos em suas redes bióticas. A partir da incorporação de novas bactérias que se beneficiam mutuamente, os simbióticos podem evoluir e se adaptar às suas condições de vida de forma mais eficiente.
A teoria da simbiogênese pressupõe que as espécies em um ecossistema são interdependentes e se beneficiam mutuamente em uma relação simbiótica. Essa interdependência não se limita apenas aos organismos vivos, mas também inclui o meio ambiente físico. Nesse contexto, a integração de novas bactérias na rede biótica pode levar a uma nova espécie em evolução: os simbióticos.
Os seres humanos são exemplos mais de simbióticos evoluídos na rede celular, pois contêm em seus corpos uma grande quantidade de bactérias que desempenham funções vitais em seu organismo, como a digestão e a produção de vitaminas, retardo do envelhecimento, etc. Essa relação simbiótica entre os seres humanos e as bactérias que os habitam é fundamental para a saúde e o bem-estar de toda a rede simbiótica.
Em seu último livro: Inteligência Inata, defendeu que a partir da ampla incorporação evolutiva de novas bactérias na sua rede biótica de longo agora que se beneficiam mutuamente, os novos simbióticos podem ainda evoluir e se adaptar às suas condições de vida de forma mais eficiente e mais longeva.
Para Lima, a emergência dos simbióticos altamente evoluídos e de amplo potencial de inteligência inata, ocorreu muito mais aceleradamente com os humanos nas últimas décadas, ainda que a evolução de sua rede simbiótica em dinâmica cooperativa e fractal com a inteligência inata encontra-se ainda em transição dominada pela velha consciência sináptica humanista, racionalizadora, linear, centralista e ainda dominantemente predadora com o ambiente onde os simbióticos evoluídos acontecem no mundo.
Atualmente retomou sua atividade como músico compositor, cantor que atuava na adolescência produzindo atualmente suas canções com o codinome Seu Kowalsky. Suas músicas, shows, vídeos podem ser acessados no canal do youtube.
https://www.youtube.com/c/seukowalskyeosnomadesdepedra
Webpage: http://www.seukowalsly.com.br
Último Livro:
https://www.google.com.br/books/edition/Intelig%C3%AAncia_inata_o_caminho_da_intelig/RwZhE